Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

.Da gravidez

Quando tive a consulta das 28 semanas não ia preparada para o desfecho final. Sim, duas semanas antes, na Curia, tinha sentido um embate violento na barriga, quase um acidente de carro localizado, e pensei que a moça tinha dado a volta. Quanto à barriga dura, que toda a gente comentava quando lhe tocava, pensei que era normal. As dores? Não fazem parte da gravidez? Quando me deitei para fazer a ecografia, antes mesmo de me tocar, o médico disse que eu estava a ter uma contração. Acha? Não. “Olhe para o formato, agora toque-lhe, e dói?” – estava quadrada, dura que nem uma pedra e doía, sim, como se um túnel estivesse a ser aberto em baixo. E a moça já encaixada para sair, apressadinha, mesmo sendo filha de dois alentejanos. Esperámos pela consulta uma hora e, nesse período, voltei a sentir aquilo três vezes. Ao Z. bastava olhar para a barriga, com um formato estranho, para perceber isso mesmo. Falávamos disto com o nosso médico quando ele pergunta: “então e o trabalho, está mais calmo?”. Quando, na última consulta, acusou a incisura e lhe expliquei que não podia ficar de baixa porque, na altura, estava sozinha e no meio de um processo chato (nesse dia trabalhei sempre no hospital de pc ligado e voltei ao trabalho até às 22:00), ele não gostou muito da minha resposta, achou que eu estava com as prioridades trocadas, e fez-me prometer que ia mudar o comportamento. Pensamos sempre que somos fortes, que conseguimos fazer tudo, que, mesmo estando grávidas, a vida vai continuar igual e podemos continuar a fazer as nossas coisas sempre da mesma forma. E ali estava a prova que não. “Está de férias e assim? Não queremos bebés prematuros. Vai ficar em casa, e desta vez não há desculpas”. E foi assim que saí dali, de lágrimas nos olhos, por uma série de coisas. Faltar ao trabalho – há dias bons e maus, como em todo o lado, mas gosto de trabalhar e do que faço. Vou ter um bebé, sim, mas esta também é uma parte importante da minha vida, e imaginava-me a trabalhar até ao final da gravidez. Baixa de risco. Palavras estranhas – talvez por conhecer gente que usa baixas, e de risco, sem que façam realmente falta, custou-me. Mas havia a pior parte – eu não estava a fingir, e havia a probabilidade real da minha filha nascer prematura por minha causa. Na médica de família o raspanete foi ainda pior. Tinha de ficar de cama, esforços zero, e mais um sem fim de recomendações. Autorização para sair de casa apenas para consultas e curso de preparação para o parto. E assim estou, desde o início de outubro. Todos os dias, semanas, são uma vitória. Sempre que recebo o email, ao domingo, a dar conta de uma nova semana e do que o meu pequeno raio de sol anda a fazer, é uma felicidade sem explicação. Mas não tem sido fácil. Sempre que saio de casa para fazer qualquer coisa, raras vezes, fico mesmo aflita e percebo que, mantendo a vida que levava, ela já estaria cá fora. Mas são muitos dias em casa. Cansei-me de séries, de livros, de dar um jeitinho às coisas, de arrumar a mala dela, sei lá. Os pontos altos do dia passam por senti-la mexer, comer e esperar que o Z. chegue a casa. O curso de preparação para o parto foi uma boa surpresa, e adorei fazê-lo, conhecer gente, sair de casa, mas durou pouco tempo. Tenho tido ajudas, tantas. A família. A minha mãe, pobrezita, tem vindo cá todas as semanas, às vezes mais do que uma vez por semana, trazer-me doses extras de mimo e de um sem fim de coisas, e ainda mais surpresas. Esta semana trouxe-me as avós e a afilhada, e fez-me chorar – já não as via há quase dois meses, tantos dias sem ir ao meu Alentejo. O pai, sempre preocupado e a arranjar-me coisas para me distrair. As avós, a mana, sempre a ligarem e a mandarem mensagens. A madrinha, sempre preocupada e a fazer-me companhia quando pode, e a ralhar quando me vê a abusar (ou não!). Os amigos. A T., a Ce., a In., a Car., a Ve., a Li., a Al., a prima Mi. – sempre com um bocadinho para mim, quer seja no facebook, no telemóvel ou numa visita. E uma especial, a A. e o meu sobrinho pequenito, que amanhã já faz três meses. São mais de 10 anos de amizade, 6 de trabalho diário conjunto, e agora até somos vizinhas. Ajudamo-nos no que podemos e uma vez por semana temos conseguido estar juntas, o que é um balão de oxigénio para os dias seguintes – aprendo a vê-la com o pequenito, vemos roupas, tralhas de bebés, conversamos sobre tudo e comemos, o ponto alto! E o meu Z., que tem sido um pai e um namorado incansável. Até a tábua de passar a ferro pendurou num sítio bem alto para que eu não a consiga tirar. E deixa-me fazer o dia da pizza e comer gelado de chocolate belga sem ralhar muito (não é o mais saudável, mas nunca senti tanta necessidade de açúcar e isto está controlado, engordei 8,5kg desde o início). Depois há os dias mais difíceis, em que as dores se tornam insuportáveis e me fazem esquecer o tédio que é estar tantos dias sozinha em casa. Como no sábado, dia 9, quando pensámos que a hora tinha chegado. Não conseguia estar sentada, não conseguia andar, perdia a força, já contávamos as dores mais fortes no relógio, rebolava com a bola de pilates, fazia as posições de relaxamento e a respiração como aprendemos no curso. Foram 4 noites assim – quando me deitava as coisas sossegavam um bocadinho, mas ao anoitecer era terrível. E foi assim que me vi obrigada a seguir o conselho da médica de família – cama. E a moça sossegou. Já estávamos a chegar tão longe, não podíamos ficar por ali. Estar muito tempo em casa faz-nos procurar e ler coisas que muitas vezes nem devíamos saber, e eu não queria (quero) que ela comece a vida numa incubadora, nem tudo o que isso implica. A minha mãe diz que agora sabemos de mais, e talvez seja verdade – ela tem sempre razão. Ontem foi dia de consulta – estava na sala de espera, sentada, quando comecei a sentir contrações mais fortes, com mais dores, fiquei sem força nas pernas, não conseguia andar, e comecei a ver tudo andar para trás outra vez. Ali fiquei de pé, amparada pelo sofá e pelo Z., até me chamarem, e na consulta continuei de pé. Parece que o colo do útero ainda está fechado, mas a rapariga já desceu bastante. Saí dali para fazer mais uma análise importante para o parto e o meu primeiro CTG, que acusou várias contrações altas. Antes de sair de lá levei uma injeção para a maturação pulmonar da moça, e hoje volto lá para levar outra, caso ela decida nascer esta semana, e as ordens são para estar de cama. Ontem jantei deitada, sempre com dores, sempre com contrações, a fechar bem as pernas para que ela não ‘caia’ antes da hora, e a perguntar-me o que mais posso fazer para que ela se aguente só mais esta semana. A noite foi terrível - nem consegui dormir, tantas eram as preocupações. Se aguentar até domingo, deixa de ser uma bebé prematura, e isso é tudo o que eu mais quero. Não tem sido fácil, nem como imaginei. Ser mãe é mesmo uma preocupação desde o instante em que sabemos que o vamos ser. Se conseguimos chegar às 12 semanas, quando começará a mexer, depois disso vem o ‘porque será que ainda não mexeu hoje’, se tem tudo no sítio, se não tem doenças, se não vem antes da hora, sempre a desejar que chegue a próxima ecografia/consulta, … . Mas, como diz o meu grande amigo Car., “se fosse fácil não era para nós”. Ontem, depois do CTG, enquanto esperava que me trouxessem a injeção, ali ao lado do bloco de partos, passaram com uma maca com uma mãe e um recém-nascido. Ela tinha um ar muito cansado, estava branca, ele ia nos braços dela, muito agasalhado, de gorro, ainda muito inchado e com manchinhas. Não pude deixar de olhar, e ela fez-me o maior sorriso do mundo e piscou-me o olho. Não é que eu tivesse dúvidas, mas naquele instante tornou-se tudo muito claro. Qual sofrimento, qual cansaço – quando chegar a hora (só mais uma semanita, por favor!), quando a tiver nos meus braços, nada mais vai importar, e tudo, mesmo tudo, vai ter valido a pena.

 

Estou:
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2012

.Casa

Em Março, a notícia de que iria estar três meses sozinha em casa deixou-me mais triste do que eu poderia alguma vez imaginar. Fiz planos, tantos planos, para sobrepor àqueles que tinha já planeado para a casa onde estávamos a morar apenas desde Janeiro. Uma casa nova, num prédio velho, tão minha quanto nenhuma outra tinha sido. Tudo tão ao meu jeito, tão perfeita, tão nossa. Acabei por não estar sozinha. Mais triste, com o pensamento mais longe, mas nunca sozinha. Os amigos, a família, foram chegando, um a um, às vezes muitos ao mesmo tempo, semana após semana. Tudo ajudou o tempo a passar. Os jantares com a madrinha, a semana com a mana, outra com a afilhada, as mensagens da T., da V., da prima Mina, a companhia diária da A., os telefonemas dos pais e das avós a toda a hora, o saber que o Z. voltaria, em três meses, àquela casa, tão nossa, aos nossos planos a dois. Não passaram sem doer, mas acabaram por passar. E o Z. voltou e voltámos aos nossos dias e dei por mim a pensar que os dias passam a uma velocidade maior do que eu gostaria. Pensei aquilo que penso tantas vezes quando quero muito que chegue uma coisa, “sem pressa, L., daqui a pouco vais estar lá com saudades deste dia, aproveita”.

Podia apontar uma data de defeitos à casa, a mim, ao Z., a nós, mas são também eles que nos tornam, a nós e à nossa casa, naquilo de que eu gosto. Podia falar da banheira mal posta, do silicone a sair, da porta velha, dos móveis com buracos ou grandes de mais, das vizinhas de baixo que se enganam e tocam à nossa campainha às 05:00 da manhã, mas tudo isso faz parte da nossa casa. Podia falar das nossas discussões, desentendimentos, momentos de apatia. Mas tudo isso faz parte de nós, e termina sempre num abraço apertado com um beijo demorado. Preciso desses defeitos, todos os dias, nestes que passam a correr, e que terminam no sofá da nossa casa, com a minha cabeça no ombro que mais gosto.

E os dias passaram, e as tão desejadas férias chegaram. Uma semaninha apenas, primeiro, para ver, finalmente, Barcelona e para as festas da terrinha. E foi tudo tão bom. Conhecer coisas, depois estar com os meus e com tudo aquilo a que um dia se resumiu a minha vida. Foi no domingo à noite, quando abri a porta e senti o cheiro da nossa casa, o nosso cheiro, que percebi, uma vez mais, que a minha mãe tem sempre razão. O nosso coração é sempre dos nossos, dos que nos amam e fizeram crescer, mas um dia muda-se de malas e bagagens para a nossa casa. E a minha é ali. Naquele prédio velho, naquela casa nova, no Z.. A minha casa é ali quando lá estamos juntos, a minha casa somos nós.

 

E agora que venham mais duas semanas de férias. Que venha a Curia e o Alentejo do Z.. A vontade é grande, ainda que tenha de confessar que já estou com saudades dela, da nossa casa.

 

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

.Toma lá

Ontem a mana e o namorado vieram ter comigo para jantar. Já tínhamos tido umas aventuras durante a tarde: devolver uma máquina que nos ofereceram porque a descobri 70€ mais barata noutro sítio – foi carregada até à loja pelo meu cunhado, de olho negro por uma bolada que levou durante a tarde, que tentou tapar com uns Ray-Ban, mas que ainda assim despertou a atenção da polícia; e pôr o combustível que trouxe de Espanha, que fica logo ali ao lado do Alentejo do Zé, num jerrican no meu carro – os três não estávamos a conseguir terminar a tarefa, pelo menos sem mandar metade para o chão. Mas a grande aventura foi ao jantar. Dei-lhes a escolher, e fiz tagliatelle com bacalhau, espinafres e natas. Quando ia repetir pela segunda vez, o rapaz detectou um objecto estranho na comida – era uma joaninha. Uma joaninha verdadeira, bem vermelinha. Todas as ervas que usei foram de compra, e não têm buracos por onde o bicho pudesse passar, com excepção dos orégãos, que trouxe do Alentejo do Zé, mas há tanto tempo atrás que não me parece que a joaninha tivesse hipóteses de sobreviver tão vermelha. Restam os espinafres, congelados. Utilizei de dois sítios, de marca branca, porque um dos pacotes estava a acabar, e por isso não posso culpar nenhum. O pior de tudo é que há algum tempo atrás trouxe um saco enorme de espinafres do Alentejo do Zé, que demorei cerca de duas horas a arranjar, a lavar, a desinfectar, e a congelar, mas ainda não usei porque tenho medo de ter deixado passar qualquer coisita. E agora, toma lá, uma joaninha nos de compra. Acho que a única explicação para estar com tão bom aspecto é ter sido congelada. O rapaz meteu-a de lado e continuou a comer – que já tinha sido lavada, fervida, e que nós até comemos caracóis e bebemos leite, qual era afinal o problema? Eu não consegui abstrair-me o resto da noite, e até enquanto comia o gelado de frutos silvestres não conseguia deixar de imaginar uma joaninha a ir parar à minha boca – porque, como disse o meu rico cunhado, elas nunca andam sozinhas, ia aparecer outra, com certeza. E agora tenho o almoço aqui arranjadinho na tupperware e nem sei que lhe faça, talvez o melhor seja ficar pelo iogurte. Às vezes temos medo de comer em certos restaurantes, ai que a ASAE fechava aquilo se fosse lá, e afinal na minha casa é que aparece uma joaninha na comida. Quando era mais pequena e encontrava um qualquer bichinho na sopa a minha avó lá me convencia que aquilo não tinha mal nenhum, se encontrasse que o tirasse, mas que se o comesse aquilo até ajudava a limpar os olhos. Com o tamanho do bicho de ontem ainda ficávamos cegos. As joaninhas devem ser dos poucos insectos que não me provocam alergias nem estão na minha lista de coisas detestáveis, mas depois disto vou ter de repensar a nossa relação. Uma joaninha no prato. Toma lá.

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

.Música

Lá por casa, no Alentejo, sempre se ouviu muita música. Os pais tinham uma aparelhagem grande, com um vidro que eu utilizava como espelho, e onde me ia vendo enquanto cantava e dançava – aos poucos deixei de me conseguir ver toda lá, e só as pernas apareciam. Não é difícil encontrar por lá microfones de todas as espécies – madeira, cortiça – as pessoas sabiam da minha veia artística e ofereciam-me, muitas vezes feitos por eles próprios. Chegaram a querer inscrever-me no Mini Chuva de Estrelas, de tanto me ouvirem a cantar “mãe sobe a semanada”, dos Onda Choc. Ainda bem que lhes passou. Num destes dias, enquanto ia para casa depois de mais um dia de trabalho, ouvi Joana, um dos discos que os pais também tinham. Comecei a cantar aquilo como se tivesse ouvido todos os dias e a lembrar-me de todas estas coisas, perdidas no baú das recordações.

 

Ontem, quando fazia a ronda habitual pelas notícias, li esta. O Wando (“Você é luz / É raio estrela e luar / Manhã de sol / Meu iaiá, meu ioiô”) morreu. Já não sei como foi parar o cd duplo lá a casa, mas foram muitas as vezes que eu, já com a mana, já na nossa casa de agora com uma aparelhagem nova e um espelho onde apareceríamos sempre, mesmo que crescêssemos mais um metro, cantámos e dançámos com ele como companhia. Quantas lágrimas aturou ele, de desgostos de amor, de brigas, sentada no chão do quarto, costas na cama, e a música dele de fundo. Neste domingo, quando passar lá por casa, vou procurá-lo, deu-me saudades, e nunca se sabe quando pode fazer falta.

 

E por falar em música, deixar aqui esta, que não me sai da cabeça, misturada com tantos outros pensamentos que me assombram por estes dias.

 

“Ninguém disse que os dias eram nossos

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma madrugada.

 

Ninguém disse que o riso nos pertence

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma gargalhada.

 

E deixar-me devorar pelos sentidos,

E rasgar-me do mais fundo que há em mim

Emaranhar-me no mundo, e morrer para ser preciso,

Nunca por chegar, ao fim.” [Mafalda Veiga]

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

.Despedida

O 'Marcos' (lê-se com sotaque brasileiro) mudou-se comigo para a Avenida do Brasil, em São Marcos, há já algum tempo. Foi naquela casa que abandonou a vida, depois de o deixarmos à sombra num fim-de-semana de sol. E ali ficou o seu esqueleto, na sala, a fazer-nos companhia todos os dias, enquanto não chegava a coragem para nos separarmos. Ontem, quando fizemos o último carregamento para a casa nova, chegou o dia. E lá o deixei, em São Marcos, terra onde fomos felizes, plantado bem perto de casa, num jardim onde todos os dias passam muitas pessoas e se ouvem muitas gargalhadas. Pareceu-nos um bom sítio para se descansar de uma vida boa. E depois, porque sou mariquinhas e porque a despedida do 'Marcos' (lê-se com sotaque brasileiro) foi também a despedida de uma fase importante, e o acumular de dias cansativos, chorei um bocadinho. Se passarem por lá digam-lhe olá. Mesmo parecendo apenas só um tronco com ramos, sempre foi um bonsai bonito e simpático. Eu talvez passe por lá hoje ou amanhã - as despedidas são-me sempre difíceis. 

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

.i (de iPhone, iPessoa, irritada, insónia, ignorante…)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu e os telemóveis temos muitas histórias juntos. Por norma, acabam debaixo de um carro, ou caem da mesa-de-cabeceira mas ficam como se tivessem sido atropelados, ou começam a fazer coisas estranhas, ou partem-se mal saem da caixa, ou sei lá. Já tive tantos, com tantos finais diferentes, que lhes perco a conta. E eu sou uma pessoa que estima as coisas, se não fosse não sei como seria. Por norma, tenho sido fã da Nokia, mas fiz uma promessa, daquelas tontas, não me costuma dar para isto, que quando avariasse ia comprar um iPhone. E, no início de Dezembro, sem motivo conhecido, o ecrã do meu telemóvel começou a ficar às riscas, uma vez, depois outra e mais outra. E de todas estas vezes eu tinha de o desligar e voltar a ligar, e pedir-lhe para não avariar, porque olha a minha promessa, e as contas, e a casa, e a crise, e a Troika, e mais não sei quantas coisas. Mas ele não me ouviu e avariou de vez no dia em que a Optimus me mandou um mail a dizer que aceitava reservas para o iPhone 4s. Era um sinal, o destino, convenci-me. O pior foi ter assinalado que queria comprar através do programa de pontos, e nunca mais me diziam nada, e o telemóvel avariado, e já toda a gente com o iPhone novo, e eu sem nada. Numa ida ao Colombo resolvi passar na loja e só tinham um, por acaso, porque uma pessoa tinha desistido da reserva, mas era branco e de 16Gb. Era mesmo o que eu queria. E foi assim que cometi a loucura de uma vida e passei a ser uma iPessoa.

 

Tenho uma vizinha no piso de cima que está a acabar, mesmo, comigo. A senhora acorda todos os dias entre as 06:30 e as 07:30 e a primeira coisa que faz é calçar os saltos altos. Corre a casa toda com os malditos sapatos e ainda se dá ao luxo de fazer sprints sempre que se esquece de alguma coisa. Consigo dizer, com toda a precisão, em que divisão da casa está. Pior ainda, se é que isso é possível, é que não a oiço só àquela hora. Sempre que está em casa – não sei como consegue, lá anda a mulher de saltos altos. SEMPRE. No sábado acordou-nos às 07:10 e à meia-noite, quando chegou a casa. No domingo acordou-nos às 07:28, ontem voltou a acordar-nos de manhã e à meia-noite, até que batemos com a vassoura no tecto e ela lá percebeu que devia descalçar-se. Se estamos a ter uma conversa séria e a senhora entra em casa, o meu cérebro pára, não consigo continuar. Os saltos martelam no chão e sinto-os a bater na minha cabeça. Fico com vontade de bater em alguém, transformo-me. Eu queria ir lá bater-lhe à porta, mas há várias coisas a segurarem-me: primeiro, porque leio o Correio da Manhã todos os dias e sei que se matam pessoas por coisas bem mais pequeninas; segundo, porque a minha mãe não deixa, agora que vamos sair dali não vale a pena arranjar problemas, e as mães têm sempre razão; terceiro, porque ela pode ser maior do que eu. Mas o plano já está traçado, vou escrever-lhe uma carta bem bonita, a explicar-lhe que nem todos temos o mesmo horário, que os saltos fazem mal à coluna e aos derrames, que gosto de acordar com o despertador, que uma vez acontece mas muitas são falta de respeito, e que vou embora, felizmente para um último andar, mas agradeço que se porte bem com os próximos inquilinos, e vou deixá-la à porta de casa dela, juntamente com um par de chinelos e uma cópia da lei do ruído. Não sei se vai perceber, porque uma pessoa que faz o que ela faz todos os dias só pode ser muito ignorante. Mas isto digo eu, que ando irritada.

 

Estou de tal maneira irritada com a senhora do 5ºC que já a oiço mesmo quando ela não está. Hoje acordei um bocadinho antes dela, já a sonhar com o momento em que os sapatos começariam a correr a casa toda. Ela saiu, o Z. saiu, e, depois, quem é que me fazia dormir outra vez? Recorri ao meu iPhone. Desde que o tenho estou ainda mais viciada no telemóvel, e faço tudo o que posso com ele. Até me tenho dedicado mais a coisas que ainda me passavam um bocadinho ao lado, como as redes sociais. Tiro fotos em todo o lado e vá de publicar. Abdiquei do meu iPod, pobrezito, mas ele compreende o meu fascínio por este novo amor. Só de fotografia já tenho três pastas cheias de aplicações. Mas tenho outras, umas normais, outras mais estranhas, como programas que emitem barulhos capazes de afastar mosquitos. Tenho uma, a “Magic Sleep”, que tem um céu estrelado, ovelhinhas a saltar e uma música que simula o batimento cardíaco para, supostamente, ajudar a adormecer – nem recomendam que se oiça aquilo no carro. E hoje recorri a ela. Só tenho a versão gratuita, de dez minutos, mas posso garantir que deu resultado, porque não me lembro do momento em que terminou. Tudo isto para chegar a uma conclusão: ando irritada, com insónias, à conta da vizinha ignorante, mas tudo podia ser muito mais difícil se não tivesse o meu iPhone. Há loucuras que vêm por bem, digo eu a tentar convencer-me. Ter-me tornado uma iPessoa só pode ser uma dessas boas.

 

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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

.Dúvidas

 

Tenho o mesmo pensamento quando visto o meu casaco branco e quando me lembro do chão da casa nova. Basta vestir o casaco uma vez e fica logo sujo, significa que se suja mais do que os outros ou que sou muito porca com os casacos escuros porque não se vê a sujidade? É o mesmo com o chão. Dizia-me o pedreiro: “Quando o Lu. chegou aqui com as paletes só lhe perguntei que coisa era aquela, agora digo-lhe que é o chão mais bonito que já usámos”. Tem sido esta a reacção das pessoas, primeiro estranham, depois gostam muito. Eu adoro e acho indicado para mim, que já estava a dar em louca com o chão branco da casa onde estou agora. A casa nova está em obras e não se consegue ver nenhuma sujidade naquele chão. Era esse o objectivo – os homens quando desenham as casas esquecem-se de uma série de coisas, não fazem despensas nem sítios para arrumações e só escolhem chão onde se nota tudo e mais alguma coisa. Agora fui eu que escolhi e a grande questão é: vou manter-me paranóica com a limpeza como sou agora ou vou deixar de ser porque a sujidade não se vê? Não sei. E nunca mais chega a hora de o poder pisar todos os dias para descobrir. O casaco branco vai hoje para a lavandaria, pela milésima vez.

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

.Apaixonada

Não sou uma pessoa com um grande amor pelos animais. Sou incapaz de os maltratar mas, se puder, dou uma volta enorme para não me cruzar com eles. Como em tudo na vida, claro que há excepções. Também eu tive coelhinhos, pintainhos, porcos da Índia, bichos-da-seda, um esquilo (que histórias tivemos com o Cajó!) e talvez outros que agora não me lembro. E cães e gatos. Gostava mesmo deles, mas quando morriam, atropelados, envenenados, de males vários, o processo de luto era tão penoso que percebi que o melhor era não tê-los, esta seria a única maneira de não sofrer. E depois houve aquele susto com o pastor alemão igual ao Rex, logo comigo que vi todos os episódios e chorei com as perdas dele, que me tentou morder quando eu tinha uns seis anos. Não me acertou, mas apanhou o braço da avó, que me tentava defender, e que nunca mais voltou a ser o mesmo. Nem eu. A partir dai, nada de cães e gatos na minha vida. Claro que sempre houve um ou outro que me conseguiu conquistar. O Scotty do meu pai, e a bicharada toda que existe no monte do Z.. E até lhes pego ao colo e deixo que se aninhem aos meus pés perto do lume. Só não tenho muita intimidade com a cadelita Duda porque ela come ratos. Já a vi comer um enorme e deitá-lo fora logo depois, mesmo à nossa frente, por se ter engasgado com o rabo. Não foi bonito. Com a minha irmã a história é diferente, é a maior defensora dos animais em geral e dos cães em particular. Deixassem os meus pais e todas as noites os cães estariam lá em casa, de preferência no quarto dela. Foi por isso que quando me começou a falar dos dois pequenotes que a Borboleta tinha trazido ao mundo não lhe liguei muito, era uma obsessão como todas as outras anteriores. Chegámos a discutir à mesa porque ela queria levar-me a vê-los e eu achava melhor gastar o meu tempo com a família que vejo tão poucas vezes. No feriado lá me convenceu e levou-me a conhecer as duas mascotes lá de casa. Os dois cãezitos são mesmo especiais e giros – sem querer ofender a mãe, devem sair ao pai, que não sabemos quem é, porque dela não têm nada. E qualquer coisa mudou. Andei com eles ao colo, demos beijinhos à esquimó, deixei-os roer os atacadores das botas novas e sujar um dos meus casacos preferidos, dei-lhes comida à boca e até me fui despedir deles com a lagrimita no olho, de acordo com o estatuto de novos membros da família. O pior foi escolher os nomes. Rimos, discutimos e lá chegámos a uma conclusão depois de muita luta. A única exigência do pai era que o lourinho fosse 'Leão', e é verdade que ele tem porte, pose e comportamento de rei (as birras que apanha quando ralhamos com ele por morder o mano são de mais), masas mulheres da casa queriam uma coisa diferente. Decidir a quatro não foi fácil - não queríamos nomes de pessoas, os apelidos de pessoas da terra também não ajudavam e somos todos muito diferentes. E o que rimos com a mãe que há uns tempos atrás nem mexia em computadores quando se saiu com "e se procurássemos na net?", e leu todas as sugestões estranhas de sites brasileiros sem sucesso. Foi no jogo do Sporting que encontrámos o nome final – depois de gostarmos as três só tivemos de convencer o pai. A mana estava num sítio do estádio com a mãe, eu noutro com o Z. e o pai ainda noutro sítio diferente. Quando entrou a nova mascote no relvado pensei que era mesmo aquilo, e a mana pensou o mesmo porque quando estava a escrever-lhe uma mensagem chegou a dela com a mesma ideia. A mãe aprovou e o pai foi um bocadinho forçado, mas ficou convencido. E assim baptizámos um de Jubas, a fera birrenta, e o outro de Ruca, que só pensa em morder calças e atacadores e foge das fotografias. Dou por mim a pensar neles muitas vezes e percebo que mudou mesmo qualquer coisa. Tenho saudades, preocupações, pergunto por eles nos telefonemas para casa, quero estar com eles o mais depressa possível, gostava de trazê-los comigo para Lisboa e fico com o coração apertadinho só de pensar que lhes pode acontecer alguma coisa enquanto estou longe. O Z. já tinha insinuado e eu não queria admitir, mas os sintomas são óbvios e chegou a hora de assumir. Estou apaixonada. Mas, vendo bem, quem não ficaria?

 

 

 

 

O meu carro (batido) tinha umas colunas com vida própria. Sempre que passava num buraco ou numa lomba uma delas deixava de funcionar e outra ganhava vida. Quando o Z. tentou arranjar (ele consegue, mas sobram sempre peças), teve de cortar um dos fios e foi logo o da memória. O meu rádio deixou de memorizar postos e cada viagem é uma aventura e um desafio até encontrar uma música ou uma estação que agrade. Hoje, já estava a chegar a casa, apanhei a Star e começou a dar uma música que normalmente me faz rir, dançar e pensar em coisas boas. Hoje, sei lá porquê, fez-me qualquer coisa estranha e comecei a chorar desalmadamente. Pensava em mim, pensava na Di. e no Nu., que sem se saber muito bem como perderam a mãe de um dia para o outro, pensava nos meus pais – entrei às dez e saí às sete e tal de rastos quando eles terminaram o dia depois de mim e às cinco da manhã já o tinham começado, sei lá. Foi tudo. E foi a música. A do rádio do meu carro batido, que já não tem colunas com vida própria, mas ainda me consegue surpreender.

http://www.youtube.com/watch?v=du2rYBS5XN4

Lá fora: "Já estou aqui, o que é que queres mais?"
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

.Vende-se

Se há coisa que está na moda lá em casa, por estes dias, são os sites tipo ‘Coisas’, ‘Custo Justo’ e afins. O Z. passa as noites a ver as novidades diárias, e, às vezes, até reclamo que liga mais àquilo do que a mim. Primeiro via casas, depois carros e bicicletas, agora esquentadores e coisas parecidas. E eu tanto me rio como me zango, mas parece que resulta, já vendeu o carro dele por lá, já comprou uma bicicleta e as nossas mesas-de-cabeceira restauradas também vieram de lá.

Neste momento, tenho a minha vida dividida em quatro casas. A nova já tem as bicicletas na arrecadação (viver num t1 com três bicicletas não estava a ser fácil), a antiga ainda tem os móveis grandes, as tralhas pequenas estão amontoadas no meu quarto do Alentejo e a de São Marcos tem as coisas do dia a dia, que já comecei a arrumar. Comecei pelas roupas de Verão, que já encheram alguns sacos azuis da IKEA. E foi quando o comecei a fazer que fiquei chocada comigo mesma, encontrei peças compradas há já algum tempo ainda com etiqueta! Eu sei que o meu maior vicio é a roupa. Fico tão, mas tão feliz quando compro um trapinho que às vezes acabo por exagerar. Por motivos fúteis. Cheguei a comprar duas coisas iguais porque uma se podia estragar! Agora já me reeduquei, penso muitas vezes antes de comprar, e até chego a devolver alguma peça passados uns dias, quando a consciência toma conta de mim.

Foi ao ver os bons exemplos de negócios do Z. que resolvi fazer o mesmo. As roupas já estão embaladas, logo penso nisso quando me instalar na casa nova. Comecei então pelo que ainda está ‘desarrumado’, e encontrei dois pares de botas e uns sapatos, tudo da Fly London, que ainda nem tive o prazer de estrear. Umas porque adoro mas não tenho nada para vestir com elas, outras porque tenho umas muito parecidas que estavam estragadas mas o senhor sapateiro arranjou muito bem, outros porque me estão apertados. Comprei porquê? Não sei. Mas já estou a tratar de os tirar da minha vida. Ainda só tive uma oferta, mas não estou a desanimar. O Natal está quase à porta, o meu telemóvel resolveu avariar logo nesta altura, e uns trocos faziam mesmo, mesmo jeito. Se não tiver tanta sorte como o Z., posso sempre guardar tudo até à próxima feira da ladra na terrinha, onde o meu lado de tendeira se manifesta à grande. Por enquanto, vou aguardando ofertas. Há por aí alguém interessado?

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Sábado, 5 de Novembro de 2011

.À boleia

Acredito que, em muitas casas, a palavra-chave tenha passado a ser 'poupar'. E medidas para levar este objectivo em diante há de todos os tipos. As espectaculares, as boas, as que até se entendem e as ridículas. São todas medidas em que nós depositamos alguma esperança, e, ainda que agradeçamos os conselhos, são para levar em frente. Estávamos nós à boleia da crise, quando tudo começou a acontecer ao mesmo tempo. Em Dezembro, que está à porta, corro o risco de estar a pagar três casas: aquela para onde vou, a que finalmente está a ser vendida mas não sei quando termina o processo, e aquela onde continuo, por não ter terminado ainda o contrato de arrendamento. Só por esta razão tinha de poupar a sério. Mas, para além de pagar casas, tenho ainda outras funções vitais para cumprir e que implicam gastos. Assim, revimos todos os nossos custos e tentámos reduzir o possível, por muito que custe. A grande fatia, talvez uns 50%, dos nossos gastos ia para o combustível. De cada vez que vamos aos nossos Alentejos, ao meu e ao do Z. (algures entre Serpa e Espanha), não gastamos menos de 60€. E chegamos a fazer isto três vezes por mês. Claro que estar com a família não tem preço, e fazem sempre questão de nos mandar o carro cheio de coisas boas (aproveitadores!), entre tantas outras razões, mas também aqui tínhamos de cortar. E foi ao tentar solucionar o problema que chegámos a uma medida que não agradou a toda a gente: não vamos deixar de estar com os nossos, pois não, mas podemos poupar, por exemplo, pedindo que nos visitem mais vezes (o que os pais têm feito, mas os do Z. não têm essa liberdade). E indo à boleia. "Mas que graça tem isso se vocês têm carro? Às tantas, se tiverem de regressar de comboio ainda gastam mais, ...", foram algumas das coisas que ouvimos. Não vamos para a estrada de dedo no ar, não entramos em carros de estranhos, tratamos apenas de conciliar agendas. E começámos já no fim-de-semana passado. A mana termina as aulas do mestrado, em Lisboa, ao sábado de manhã. Fomos lá ter, deixámos lá o carro e seguimos viagem com ela. E foi um fim-de-semana para lá de bom. Almoçámos em casa dos sogros da mana, visitámos os avós a pé com tempo, aproveitámos os pais e fartámo-nos de rir com o dente acabado de partir da mãe (mesmo à frente, parecia mascarada!), fomos a uma festa das bruxas na terrinha (eu, a Su. e a mana de saltos altos e lábios bem vermelhos), passeámos numa feira de artesanato realmente boa também na terrinha e ainda tivemos direito a lanche de netos na avó T., a matar saudades da Curia, com fatias douradas, papas de abóbora, jogos de roda de outros tempos e muitas gargalhadas. No domingo à noite tivemos de regressar. À boleia. Com o namorado da mana, que nos deixou no nosso carro, a nós e aos sacos cheios de comida boa. Gostámos tanto desta medida - não gastamos dinheiro, aproveitamos a família ao máximo e não obrigamos ninguém a gastar mais do que gastaria, que já decidimos que é para repetir. E já utilizámos a mesma fórmula neste fim-de-semana que agora começou. Foi um começo atribulado - o Z. vendeu o carro inesperadamente às 23h em Lisboa, o carro da mana deixou de funcionar no parque subterrâneo da faculdade que fechava à mesma hora do negócio e os pais à nossa espera para o jantar, a caminho do Alentejo do Z.. Lá nos despedimos do carro do Z. (onde demos o primeiro beijinho), resgatámos a mana e o carro dela, jantámos com os pais à uma da manhã e chegamos ao Alentejo do Z. quase as quatro, de boleia no carro do amigo Di., que nos atura umas vezes e nós aturamos outras. A meias custa menos e não ofende ninguém. E, frases feitas mas verdadeiras, cada um sabe de si e os passos não devem ser maiores do que as pernas. Nós estamos a gostar disto. A nossa conta também. E parece que vamos continuar assim - a andar à boleia. (post escrito e publicado no telemóvel, desculpem qualquer coisita)

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