Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015

.Hoje morreu um homem bom

Hoje morreu um homem bom. Um homem de quem gosto muito e que sei que também gostava de mim (e da minha pequenita). Obrigada: pelos passeios que demos com o avô Chico, pelos pés descalços na sua horta, pelo colo que me dava enquanto eu comia arroz doce. Tenho saudades de o ver chegar todos os dias do trabalho, de o ver parar a carrinha ao lado da minha casa, e abrir o portão. Esta é a imagem que vou guardar – o aceno de mão na boina, o sorriso meigo. Foi consigo que aprendi a registar tudo o que se passa para nunca esquecer. Quis o destino, ou sei lá o quê, que, quase no fim, acabasse por esquecer tudo. Por aqui fica a lembrança e a saudade. Hoje morreu um homem bom – o vizinho António Rita.

Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

.Nas nossas mãos

Sou um bocadinho pessimista e sofro muito por antecipação. E, infelizmente, isto não se muda - eu, pelo menos, não consigo mudar, faz parte de mim. Por curiosidade, no outro dia estivemos a ler as características do signo da rapariga, e fiquei logo triste só por dizerem que ela vai ganhar asas cedo e passar meses sem ligar aos pais. Se tudo correr bem, temos uma vida pela frente, e também está nas nossas mãos, espero, fazer com que seja diferente. Mas eu sou assim, e as hormonas também não ajudam nada, e lá fiquei deprimida. Sou pessimista e sofro por antecipação, pois é, mas depois, no fundo, sou como todas as outras pessoas - acredito, ou quero muito acreditar, que há coisas que só acontecem aos outros e que nunca nos hão-de tocar a nós. Depois vem aquela coisa a que chamamos vida e prega-nos rasteiras, e devíamos aprender qualquer coisa com elas, mas isso nem sempre acontece. Desde que sou mãe tudo me toca muito mais profundamente - um episódio de uma série com um bebé abandonado dá para quase uma hora de choro, fotos de crianças subnutridas ou doentes acabam comigo, notícias de crianças desaparecidas, mortas e outras coisas más deixam-me sem vontade de viver neste mundo. Mas depois olho para a minha pequenita, para a minha família, e fico cheia de vontade de viver, de fazer coisas, de mudar tudo aquilo que estiver ao meu alcance. Sim, porque se há coisas que não estão nas nossas mãos e temos de aceitá-las como chegam até nós, outras dependem apenas da nossa vontade, da nossa coragem, de nós. E era sobre uma destas coisas que eu queria escrever hoje - uma para a qual todos nós podemos contribuir. O Vitor faz parte da minha vida há pouco tempo, mas tem um papel fundamental. É ele que ilumina o coração e alimenta o sorriso, como ninguém conseguiu alguma vez fazer, de uma das pessoas da minha vida, a Tania. O Vitor está doente e, infelizmente, pode ficar ainda mais. A parte boa desta história, sem contar com o amor todo que eles sentem, é que nós podemos contribuir para a saúde e felicidade do Vitor. Como? Fazendo com que seja possível ele viajar até à Alemanha para fazer o tratamento adequado ao tumor dele. Menos um pastel de nata, um café, uma cerveja nas nossas vidas, pode ser mais um euro de esperança para o Vitor. E não deixa de ser também uma dose de esperança para todos nós - quantas vezes podemos dizer que está nas nossas mãos mudar o mundo de alguém? A verdade é que as coisas más não acontecem só aos outros - acontecem aos nossos, acontecem-nos a nós. E quando esse dia chegar vamos querer que nos ajudem também, que mudem o nosso mundo também. Que reencaminhem o nosso pedido de ajuda, que partilhem o nosso apelo, que contribuam com um cêntimo que seja. Acredito que a vida compensa as boas acções. Vamos fazer uma já hoje?
Está tudo aqui: https://www.facebook.com/avitoria.dovitor
Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

.Da gravidez

Quando tive a consulta das 28 semanas não ia preparada para o desfecho final. Sim, duas semanas antes, na Curia, tinha sentido um embate violento na barriga, quase um acidente de carro localizado, e pensei que a moça tinha dado a volta. Quanto à barriga dura, que toda a gente comentava quando lhe tocava, pensei que era normal. As dores? Não fazem parte da gravidez? Quando me deitei para fazer a ecografia, antes mesmo de me tocar, o médico disse que eu estava a ter uma contração. Acha? Não. “Olhe para o formato, agora toque-lhe, e dói?” – estava quadrada, dura que nem uma pedra e doía, sim, como se um túnel estivesse a ser aberto em baixo. E a moça já encaixada para sair, apressadinha, mesmo sendo filha de dois alentejanos. Esperámos pela consulta uma hora e, nesse período, voltei a sentir aquilo três vezes. Ao Z. bastava olhar para a barriga, com um formato estranho, para perceber isso mesmo. Falávamos disto com o nosso médico quando ele pergunta: “então e o trabalho, está mais calmo?”. Quando, na última consulta, acusou a incisura e lhe expliquei que não podia ficar de baixa porque, na altura, estava sozinha e no meio de um processo chato (nesse dia trabalhei sempre no hospital de pc ligado e voltei ao trabalho até às 22:00), ele não gostou muito da minha resposta, achou que eu estava com as prioridades trocadas, e fez-me prometer que ia mudar o comportamento. Pensamos sempre que somos fortes, que conseguimos fazer tudo, que, mesmo estando grávidas, a vida vai continuar igual e podemos continuar a fazer as nossas coisas sempre da mesma forma. E ali estava a prova que não. “Está de férias e assim? Não queremos bebés prematuros. Vai ficar em casa, e desta vez não há desculpas”. E foi assim que saí dali, de lágrimas nos olhos, por uma série de coisas. Faltar ao trabalho – há dias bons e maus, como em todo o lado, mas gosto de trabalhar e do que faço. Vou ter um bebé, sim, mas esta também é uma parte importante da minha vida, e imaginava-me a trabalhar até ao final da gravidez. Baixa de risco. Palavras estranhas – talvez por conhecer gente que usa baixas, e de risco, sem que façam realmente falta, custou-me. Mas havia a pior parte – eu não estava a fingir, e havia a probabilidade real da minha filha nascer prematura por minha causa. Na médica de família o raspanete foi ainda pior. Tinha de ficar de cama, esforços zero, e mais um sem fim de recomendações. Autorização para sair de casa apenas para consultas e curso de preparação para o parto. E assim estou, desde o início de outubro. Todos os dias, semanas, são uma vitória. Sempre que recebo o email, ao domingo, a dar conta de uma nova semana e do que o meu pequeno raio de sol anda a fazer, é uma felicidade sem explicação. Mas não tem sido fácil. Sempre que saio de casa para fazer qualquer coisa, raras vezes, fico mesmo aflita e percebo que, mantendo a vida que levava, ela já estaria cá fora. Mas são muitos dias em casa. Cansei-me de séries, de livros, de dar um jeitinho às coisas, de arrumar a mala dela, sei lá. Os pontos altos do dia passam por senti-la mexer, comer e esperar que o Z. chegue a casa. O curso de preparação para o parto foi uma boa surpresa, e adorei fazê-lo, conhecer gente, sair de casa, mas durou pouco tempo. Tenho tido ajudas, tantas. A família. A minha mãe, pobrezita, tem vindo cá todas as semanas, às vezes mais do que uma vez por semana, trazer-me doses extras de mimo e de um sem fim de coisas, e ainda mais surpresas. Esta semana trouxe-me as avós e a afilhada, e fez-me chorar – já não as via há quase dois meses, tantos dias sem ir ao meu Alentejo. O pai, sempre preocupado e a arranjar-me coisas para me distrair. As avós, a mana, sempre a ligarem e a mandarem mensagens. A madrinha, sempre preocupada e a fazer-me companhia quando pode, e a ralhar quando me vê a abusar (ou não!). Os amigos. A T., a Ce., a In., a Car., a Ve., a Li., a Al., a prima Mi. – sempre com um bocadinho para mim, quer seja no facebook, no telemóvel ou numa visita. E uma especial, a A. e o meu sobrinho pequenito, que amanhã já faz três meses. São mais de 10 anos de amizade, 6 de trabalho diário conjunto, e agora até somos vizinhas. Ajudamo-nos no que podemos e uma vez por semana temos conseguido estar juntas, o que é um balão de oxigénio para os dias seguintes – aprendo a vê-la com o pequenito, vemos roupas, tralhas de bebés, conversamos sobre tudo e comemos, o ponto alto! E o meu Z., que tem sido um pai e um namorado incansável. Até a tábua de passar a ferro pendurou num sítio bem alto para que eu não a consiga tirar. E deixa-me fazer o dia da pizza e comer gelado de chocolate belga sem ralhar muito (não é o mais saudável, mas nunca senti tanta necessidade de açúcar e isto está controlado, engordei 8,5kg desde o início). Depois há os dias mais difíceis, em que as dores se tornam insuportáveis e me fazem esquecer o tédio que é estar tantos dias sozinha em casa. Como no sábado, dia 9, quando pensámos que a hora tinha chegado. Não conseguia estar sentada, não conseguia andar, perdia a força, já contávamos as dores mais fortes no relógio, rebolava com a bola de pilates, fazia as posições de relaxamento e a respiração como aprendemos no curso. Foram 4 noites assim – quando me deitava as coisas sossegavam um bocadinho, mas ao anoitecer era terrível. E foi assim que me vi obrigada a seguir o conselho da médica de família – cama. E a moça sossegou. Já estávamos a chegar tão longe, não podíamos ficar por ali. Estar muito tempo em casa faz-nos procurar e ler coisas que muitas vezes nem devíamos saber, e eu não queria (quero) que ela comece a vida numa incubadora, nem tudo o que isso implica. A minha mãe diz que agora sabemos de mais, e talvez seja verdade – ela tem sempre razão. Ontem foi dia de consulta – estava na sala de espera, sentada, quando comecei a sentir contrações mais fortes, com mais dores, fiquei sem força nas pernas, não conseguia andar, e comecei a ver tudo andar para trás outra vez. Ali fiquei de pé, amparada pelo sofá e pelo Z., até me chamarem, e na consulta continuei de pé. Parece que o colo do útero ainda está fechado, mas a rapariga já desceu bastante. Saí dali para fazer mais uma análise importante para o parto e o meu primeiro CTG, que acusou várias contrações altas. Antes de sair de lá levei uma injeção para a maturação pulmonar da moça, e hoje volto lá para levar outra, caso ela decida nascer esta semana, e as ordens são para estar de cama. Ontem jantei deitada, sempre com dores, sempre com contrações, a fechar bem as pernas para que ela não ‘caia’ antes da hora, e a perguntar-me o que mais posso fazer para que ela se aguente só mais esta semana. A noite foi terrível - nem consegui dormir, tantas eram as preocupações. Se aguentar até domingo, deixa de ser uma bebé prematura, e isso é tudo o que eu mais quero. Não tem sido fácil, nem como imaginei. Ser mãe é mesmo uma preocupação desde o instante em que sabemos que o vamos ser. Se conseguimos chegar às 12 semanas, quando começará a mexer, depois disso vem o ‘porque será que ainda não mexeu hoje’, se tem tudo no sítio, se não tem doenças, se não vem antes da hora, sempre a desejar que chegue a próxima ecografia/consulta, … . Mas, como diz o meu grande amigo Car., “se fosse fácil não era para nós”. Ontem, depois do CTG, enquanto esperava que me trouxessem a injeção, ali ao lado do bloco de partos, passaram com uma maca com uma mãe e um recém-nascido. Ela tinha um ar muito cansado, estava branca, ele ia nos braços dela, muito agasalhado, de gorro, ainda muito inchado e com manchinhas. Não pude deixar de olhar, e ela fez-me o maior sorriso do mundo e piscou-me o olho. Não é que eu tivesse dúvidas, mas naquele instante tornou-se tudo muito claro. Qual sofrimento, qual cansaço – quando chegar a hora (só mais uma semanita, por favor!), quando a tiver nos meus braços, nada mais vai importar, e tudo, mesmo tudo, vai ter valido a pena.

 

Estou:
Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

.Feliz Natal e um 2013 em grande!

Sou uma pessoa pessimista. Por natureza, também, e muito condicionada pelos meus dias. Não podem levar isto a mal numa pessoa que a primeira coisa que faz quando chega ao trabalho é a revista de imprensa. Não consigo ficar indiferente à quantidade de más notícias que leio por dia, por mês, por ano, nem consigo contrabalançá-las com as poucas boas que vão aparecendo. É normal estar a viver uma qualquer situação, ou simplesmente a pensar, e a tentar descrevê-la na minha cabeça como uma notícia. Defeito profissional. O título faz sentido? Lembra-me qualquer coisa que li? Então há probabilidade de acontecer. Sou a pessoa que numa situação completamente normal acha que vai tudo descambar. Um pneu furado? Atropelamento certo. Viajar numa carrinha de caixa aberta e na caixa? Queda certa. Uma pescaria no mar? Afogamento certo. E poderia continuar assim o dia todo. Mas, para meu bem e de todas as pessoas que me rodeiam, isto nem sempre é assim. E foi num destes dias, em que, sei lá porquê, estava imbuída de um otimismo fora do comum, que fui apanhada numa conversa, entre amigas, onde reclamavam deste ano que está a terminar. Que 2012 não teve nada de especial, que não as marcou, que só querem que termine rápido. E eu a dizer-lhes que não. Deixem lá os dias passar devagar, deixem lá aproveitar cada bocadinho, deixem lá viver um dia de cada vez. 2012 não nos marcou? Para mim, de forma muito resumida, é sinal de que não perdi ninguém importante, não me ‘roubaram’ mais ninguém. Tive de contar os trocos, pensar mais no futuro, mudar planos, apanhar grandes desilusões, reagir a grandes mudanças. Mas, no que toca às minhas pessoas, àquelas que são realmente importantes, essas continuam comigo, como sempre, como é costume e normal. É aqui que se encaixa outra das minhas teorias, que me acompanha a par do pessimismo, normal é bom. Normal é tão, tão bom. Por isso, este é o meu desejo para os amigos: normalidade. Espero que tenham um Natal normal e um 2013 normal, rodeado das vossas pessoas normais. E que o vosso normal seja sempre acima de Feliz. Um desejo que traz, por arrasto, uma missão: cabe, a cada um de nós, fazer por multiplicar esses momentos. Oiço dizer que são estes bocadinhos, os normais, com as nossas pessoas, a única coisa que levamos deste mundo – que, pelos vistos, não desistiu de nós e vai continuar a aturar-nos, o normal.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico (isto é que não é normal, mas tem de ser)

Quinta-feira, 4 de Outubro de 2012

.Nas minhas mãos

Em dias assim, de apertos, resta-me* animar com as palavras de quem não conheço. Dei-lhe apenas uma resposta muito pequenina e simples, entre tantas outras. Penso eu. Às vezes, mesmo sem notarmos, em pequenas escolhas, temos a vida dos outros nas nossas mãos. Fazemos também o papel de Deus. Interpretamos as urgências à nossa medida, tantas vezes sem a verdadeira noção daquilo que se passa. Vendo as coisas assim, talvez tenha já sido má com tanta gente. Mas hoje, ao ler isto, hoje sabe-me bem saber que também está nas minhas mãos fazer alguém feliz.

 

“Não tenho palavras para agradecer a atenção e colaboração, resta-me apenas aplaudir o empenho, e a capacidade de resposta atempadamente. O meu muito obrigado, tenham a certeza que um dia eu serei testemunho de que existem pessoas bondosas, capacitadas e qualificadas, motivo pelo qual sinto orgulho dessa equipa que de outro lado está a fazer um excelente trabalho.

Boa noite, continuação de uma boa semana e muita saúde e felicidades na vida,

X”

 

*Mentira. Também houve coisas boas: piquenique na relva com as amigas ao almoço, acompanhar a mana à primeira entrevista pós-curso e saber que posso sempre contar com o Z..

Estou:
Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

.Parabéns

Este ano, pela primeira vez, ia ser tão fácil oferecer-te uma prenda de anos. Com tantos concertos bons que por aí vêm, não ia ser nada difícil. Provavelmente, já terias comprado bilhete para todos aqueles que quererias ir ver, mas eu ia contornar isso facilmente, e oferecer-te um castigo bom. Ia obrigar-te a ires a um dos meus. Sei que o teu dia de Rock in Rio seria o de Offspring e amigos, mas lá terias tu de ir ver Bryan Adams comigo. Ou então escolhia um daqueles que quero mesmo ir ver, mas ainda não tive coragem de gastar dinheiro. Lana Del Rey no Meco, Florence and the Machine aqui tão pertinho. Estes iam ser castigos maus para ti. Mas sei que ias aguentar estoicamente. E sei também que quando eu me sentisse cansada voltavas a sentar-te na relva, como tantas vezes, para deixar-me descansar os olhos nos teus ombros. Ou podia apostar numa repetição, e íamos ver Keane, ou Sting. Ia ser tão fácil. Tenho tanta, mas tanta pena que não estejas aqui. Por tantas coisas, pelas pequenas, como estas, também. Parabéns Tuto.

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

.Beja

Os meus pais nunca me deixaram trabalhar em tempo de estudo. “Dedica-te à escola, é o teu trabalho”, diziam-me. Durante as férias a conversa era outra, e já estava mentalizada com um Verão a apanhar tomate para conseguir uns trocos quando a minha tia me falou de uma bolsa de Verão para familiares e amigos dos funcionários do Santander. Inscrevi-me sem grande esperança, e acabei com a réstia que tinha no dia das provas: era a mais nova, a única de calças de ganga, a estudar jornalismo e foi um dia com muitas peripécias. Avisaram-nos logo que não escolhêssemos Lisboa, o melhor seria ponderarmos opções no interior, e eu escolhi todos os balcões nas redondezas da minha terrinha. Ligaram-me quando eu regressava a Lisboa, vinda do Porto, num alfa que não me deixava ouvir grande coisa. Beja era opção? Soltei uma gargalhada, as minhas provas tinham sido assim tão más? Pelo contrário, explicaram-me, tinha até tido a melhor nota, mas nenhum dos balcões que eu mencionei tinha aberto vagas. Liguei para os pais, como faço quase sempre na hora de tomar decisões, mesmo as simples, como comprar um móvel vermelho. E, claro, foi a mãe que se lembrou da casa da G., que estudava em Beja e não estaria lá no Verão. Mudei-me para Beja durante três meses. Para uma casa desconhecida, para um trabalho do qual não sabia nada, sem conhecer uma única pessoa. Os exames ainda não tinham terminado, e teria de fazer muitas caminhadas até Lisboa. As minhas roupas não se adequavam ao tipo de trabalho, teria de renovar o guarda-roupa. Ainda não tinha carro, e tinha de me sujeitar às boleias e aos transportes. Sem problema, eu havia de conseguir. E aqueles três meses em Beja foram realmente bons. Aprendi tanto, conheci gente tão boa, cresci mais do que esperava. As colegas de casa fizeram-me sentir realmente em casa, os colegas do trabalho fizeram-me sentir em família, a família e os amigos de sempre esforçaram-se para que eu não sentisse a distância, e a cidade passou a ser minha também. Nem os 40º, nem os dias sozinha em casa, nem os kms percorridos, nem os clientes mal-educados me fizeram ir abaixo. Tinha os dois meninos da caixa sempre a animarem-me, a D. M. que vinha para fazer a limpeza e nos comprava sempre gelados, o menino das tintas para me dizer como estava bonita, o sr. L. para me levar aos melhores restaurantes, e sei lá. Foi tão bom. Na segunda, quando anunciaram no jornal, à noite, o triplo homicídio em Beja, não pude deixar de ficar angustiada e de tentar saber tudo sobre o que se tinha passado. Conhecia o senhor, pois conhecia. O desfalque tão falado foi no banco onde trabalhei, e tantas vezes ouvi aquela história. Passei tantas vezes na loja da família naqueles dias em que não tinha mais nada para fazer para além do trabalho. E foi em Beja, na minha cidade, com as minhas pessoas.

Raramente comento coisas da actualidade aqui neste cantinho. Tenho opinião, pois tenho, mas gosto de guardá-la para mim. Prefiro contar as minhas coisas, e não expressar alegria ou tristeza, aprovação ou desprezo perante as coisas dos outros. Prefiro não julgar ninguém, porque nunca sei aquilo que a vida me pode trazer. Mas hoje preciso de dizer que estou triste, que custa, que não percebo, que a maldade humana não tem limites. Que por mais séries que veja onde tenha de tapar os olhos nenhuma chega aos calcanhares da realidade. Que leio todas as notícias que saem nos jornais e penso: “mas aquela família não teve nada de bom”? Que tenho vontade de voltar lá, ver as minhas pessoas, e partilhar um bocadinho da dor que os atingiu a todos. Sei que não posso fazer nada. Às vezes não tenho sequer poder para mudar o meu mundo, quanto mais o dos outros. A maldade faz-nos perceber a nossa pequenez, insignificância. Hoje vou ligar às minhas pessoas, de Beja, a dizer isto mesmo. Somos nada, feitos de pequenos nadas. E eu gostei que eles fizessem parte dos meus. E continuo por aqui.

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Feliz Natal e um 2012 perfeito!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por incrível que pareça, a árvore da imagem foi a única que, em 27 anos de vida, vi nascer e crescer até ficar como está aqui. Não está na minha casa, é do trabalho. E não é uma árvore verdadeira, daquelas que em tempos podia escolher no campo, com os pais e a mana. Mas ajudei a construi-la do início ao fim. E deu algum trabalho. Foi preciso encaixar as diferentes partes, equilibrar a árvore, abrir os ramos, pensar na decoração possível com as peças que nos deram, desenlear as luzes, fazer cálculos para as espaçar, mudar o escadote de sítio vezes sem conta para que as bolas a cobrissem na perfeição, esticar-me ao máximo para conseguir encaixar a estrela bem lá no topo, arrastá-la até ao sítio certo. E, no final, quando ligámos as luzes, fiquei ali parada, a contemplá-la, de sorriso na cara, orgulhosa de todo aquele trabalho partilhado. Não deixa de ser assim, como esta árvore, a nossa vida. A quantos equilíbrios, encaixes, cálculos, esforços, desenleios, adaptações, partilhas, …, nos obriga a vida. Viver dá trabalho, pois dá, mas também é compensador. Espero, e desejo, que no final de cada ano, já deste que agora se aproxima, possamos olhar para trás, para tudo o que fizemos, para a nossa vida, e possamos contemplá-la assim também, de sorriso na cara, orgulhosos de tudo o que fizemos com o que nos foi dado. Um Feliz Natal e que 2012 seja apenas o primeiro de muitos anos perfeitos.

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

.A infância

No outro dia, no Alentejo do Z., a conversa foi parar à nossa infância. Aos pais, à educação, aos traumas que nos acompanharam pela vida fora. Fui ouvindo as reclamações do Z. e da prima, eles que tinham ali os pais presentes, e fui pensando em mim. Pensei, pensei, e percebi que sempre fui realmente feliz. E que a culpa disso é da minha família. Fiquei até orgulhosa quando ouvi o Z. dizer no outro dia aos meus avós que desde que está comigo passou a dar mais valor à família dele e ao tempo que passa com ela - ele que acompanha as minhas correrias de fim-de-semana para visitar todos nem que seja por cinco minutos antes de irmos para a semana de trabalho. Tivemos problemas, zangas, chatices, coisas menos boas, como em todas as famílias, mas traumas nem um. Fizemos aquilo que sabemos melhor, ser uma família, e resolvemos as coisas mais ou menos no momento. Sei que fui uma criança e uma adolescente feliz – que resultou naquilo que sou hoje. Os pais não disseram sim a tudo, não fizeram tudo o que eu queria, também deram algumas palmadas, e tudo isto foi preciso. Sei também que disseram sim e fizeram coisas que talvez não parecessem bem aos outros, e só a nós. Não houve padrões, houve análises caso a caso – “a tua liberdade depende de ti e só de ti, é o teu comportamento que pode ditar o que fazes, o que és e onde vais”, disse-me o pai tantas vezes. E esta frase, assim como tantas que me disseram e continuam a dizer, fizeram de mim o que sou hoje. Sei que deve haver muita gente por aí a dizer que tem os melhores pais do mundo, mas tenho a dizer-lhes que só podem estar enganados. É que os melhores, não tenho duvidas, são os meus.

 

Há muitos anos atrás, há mais de vinte, a Zi., uma amiga, fez um trabalho para a faculdade em que me usou como ‘modelo fotográfico’. O trabalho veio parar às minhas mãos no outro dia e quase todos lá em casa deixámos cair uma lagrimita ao vê-lo. Ao ver estas fotos não tive dúvidas – fui mesmo uma criança feliz (e na moda!).

 

(Tenho andando meio ausente daqui, um dia destes explico porquê)

 

 

 

 

 

 

 

Sábado, 5 de Novembro de 2011

.À boleia

Acredito que, em muitas casas, a palavra-chave tenha passado a ser 'poupar'. E medidas para levar este objectivo em diante há de todos os tipos. As espectaculares, as boas, as que até se entendem e as ridículas. São todas medidas em que nós depositamos alguma esperança, e, ainda que agradeçamos os conselhos, são para levar em frente. Estávamos nós à boleia da crise, quando tudo começou a acontecer ao mesmo tempo. Em Dezembro, que está à porta, corro o risco de estar a pagar três casas: aquela para onde vou, a que finalmente está a ser vendida mas não sei quando termina o processo, e aquela onde continuo, por não ter terminado ainda o contrato de arrendamento. Só por esta razão tinha de poupar a sério. Mas, para além de pagar casas, tenho ainda outras funções vitais para cumprir e que implicam gastos. Assim, revimos todos os nossos custos e tentámos reduzir o possível, por muito que custe. A grande fatia, talvez uns 50%, dos nossos gastos ia para o combustível. De cada vez que vamos aos nossos Alentejos, ao meu e ao do Z. (algures entre Serpa e Espanha), não gastamos menos de 60€. E chegamos a fazer isto três vezes por mês. Claro que estar com a família não tem preço, e fazem sempre questão de nos mandar o carro cheio de coisas boas (aproveitadores!), entre tantas outras razões, mas também aqui tínhamos de cortar. E foi ao tentar solucionar o problema que chegámos a uma medida que não agradou a toda a gente: não vamos deixar de estar com os nossos, pois não, mas podemos poupar, por exemplo, pedindo que nos visitem mais vezes (o que os pais têm feito, mas os do Z. não têm essa liberdade). E indo à boleia. "Mas que graça tem isso se vocês têm carro? Às tantas, se tiverem de regressar de comboio ainda gastam mais, ...", foram algumas das coisas que ouvimos. Não vamos para a estrada de dedo no ar, não entramos em carros de estranhos, tratamos apenas de conciliar agendas. E começámos já no fim-de-semana passado. A mana termina as aulas do mestrado, em Lisboa, ao sábado de manhã. Fomos lá ter, deixámos lá o carro e seguimos viagem com ela. E foi um fim-de-semana para lá de bom. Almoçámos em casa dos sogros da mana, visitámos os avós a pé com tempo, aproveitámos os pais e fartámo-nos de rir com o dente acabado de partir da mãe (mesmo à frente, parecia mascarada!), fomos a uma festa das bruxas na terrinha (eu, a Su. e a mana de saltos altos e lábios bem vermelhos), passeámos numa feira de artesanato realmente boa também na terrinha e ainda tivemos direito a lanche de netos na avó T., a matar saudades da Curia, com fatias douradas, papas de abóbora, jogos de roda de outros tempos e muitas gargalhadas. No domingo à noite tivemos de regressar. À boleia. Com o namorado da mana, que nos deixou no nosso carro, a nós e aos sacos cheios de comida boa. Gostámos tanto desta medida - não gastamos dinheiro, aproveitamos a família ao máximo e não obrigamos ninguém a gastar mais do que gastaria, que já decidimos que é para repetir. E já utilizámos a mesma fórmula neste fim-de-semana que agora começou. Foi um começo atribulado - o Z. vendeu o carro inesperadamente às 23h em Lisboa, o carro da mana deixou de funcionar no parque subterrâneo da faculdade que fechava à mesma hora do negócio e os pais à nossa espera para o jantar, a caminho do Alentejo do Z.. Lá nos despedimos do carro do Z. (onde demos o primeiro beijinho), resgatámos a mana e o carro dela, jantámos com os pais à uma da manhã e chegamos ao Alentejo do Z. quase as quatro, de boleia no carro do amigo Di., que nos atura umas vezes e nós aturamos outras. A meias custa menos e não ofende ninguém. E, frases feitas mas verdadeiras, cada um sabe de si e os passos não devem ser maiores do que as pernas. Nós estamos a gostar disto. A nossa conta também. E parece que vamos continuar assim - a andar à boleia. (post escrito e publicado no telemóvel, desculpem qualquer coisita)

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