Sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

.Querido avô...

Fez na quarta-feira 18 anos que morreu um dos homens da minha vida, o meu avô. Digam lá o que disserem, pensem lá o que pensarem, nesse dia senti que o tinha perdido. Tinha 12 anos e levaram-me de casa para a outra avó. Tive direito a uma despedida, dias antes, sem saber. Fiz-lhe duas promessas: que ia cuidar da avó e que ia estudar, porque a loja já não tinha muito futuro. E fiquei com as moedas que tinham caído dos seus bolsos para o chão. Nesse dia, na outra avó, os cães uivaram muito tempo e os galos cantaram à tarde, fez-me ela notar. E isso, por ali, é sinal de morte. Uma das primas do Seixal, da minha idade, que passava férias na avó dela, pôde pela primeira vez dormir fora de casa e passou comigo a noite. Tantas coisas estranhas. Depois, de manhã, os vizinhos que me foram buscar para ir comprar roupa escura, já depois de saber a notícia. E ali estava eu, mais tarde, de negro por dentro e por fora, à espera que levantassem o pano branco naquela que hoje é a casa da tralha dos pais, para me despedir de si. Não me custou olhar. Mais branco, mais vazio, mas o meu avô, já sem dor. Foi ali que percebi que era tudo verdade. Foi a minha primeira morte, a primeira pessoa que me faltou sem ilusões de volta possível. Sofreu mais do que devia, mais do que as pessoas más deviam sofrer, quanto mais o meu avô. Não tenho ilusões aqui também. Sei que não era perfeito, que tinha lá as suas coisas, mas todos temos. E tenho tantas coisas boas na memória, e apenas uma má. O tempo também tem coisas boas. Ainda na primária, quando chegava da escola, a avó fazia sempre ovos estrelados para o nosso lanche. Nesse dia, uma cliente fê-la perder mais tempo na loja, e demorar mais a fazer o nosso lanche. Quando chegou à cozinha, o avô pegou na frigideira já com azeite e atirou-a ao chão - sujou as cortinas novas da cozinha onde comíamos sempre todos, em família. Eu fugi, a chorar, para casa, ele foi atrás e pediu-me desculpa. Fui a única neta que teve a sorte de passar férias com os dois em Sesimbra - e se eu era difícil, por ser muito dada. Dizia-me que eu conhecia uma equipa de futebol diferente todos os dias. Agora vamos para a Curia só com a avó, este ano já com a Aurora, e imagino como gostaria de nos ver a todos - não tanto nos últimos tempos, porque a doença lhe tirava a paciência (mas não o amor). Tive também a sorte de passear com ele por Vendas Novas, onde conseguia chegar de olhos fechados, de comprar peixe e fruta, de conhecer os seus amigos. Participámos uma vez num rallypaper com o vizinho A. Rita e ficámos em último lugar. Encarregou-me a mim de escolher o prémio e pensou, sei lá porquê, que eu ia escolher uma garrafa de bebida. Escolhi uma cabaça com desenhos e ouvi ralhar - mas ainda a tenho! Acho que cumpro as minhas promessas - faço o que posso pela avó, e estudei. Não que isso faça a diferença, avô. O meu emprego, por estes dias, transformou-se em trabalho e irei para lá um bocadinho mais triste. Vão mudar-me de sítio e para onde vou não preciso de nada daquilo que levei anos a aprender. Vou sem reclamar, pois, que nesta fase da vida o ordenado, enquanto vier, é muito bom. Ouvi, durante muito tempo, que era muito parecida a si - sempre que apanhava uma birra! Há já uns bons tempos que não apanho nenhuma, mas gosto de pensar que continuo parecida em qualquer coisa. Agora aprendi a falar no momento e isso deixa-me tão leve que às vezes até me esqueço do motivo que me levou a ficar triste (na vida, no trabalho não dá).A loja, pois, a nossa loja. Oiço há muitos anos que não chega ao final do ano, mas lá vai resistindo. Com os problemas do costume, com os que a crise também trouxe, e com mais alguns ainda. Mas o melhor pão do mundo ainda é nosso. E no dia em que ela fechar morre também um bocadinho meu. E sei que seu também. Lembro-me de ir até ao cemitério de bicicleta e ficar ali a falar e a olhar para a campa até me dar um arrepio por estar ali sozinha. Sítio estranho, o avô sempre o disse. E que não queria estar ali sozinho, mas também não queria estar muito fundo, então a avó comprou a campa do lado e ali anda a limpar a sua, em cima do sítio para onde diz que vai também. E isso arrepia-me sempre. A mim, por favor, não me metam ali. Não quero, como um dia me disse, as 'rapas' a comerem-me os ouvidos. Que me queimem logo de uma vez. Lembro-me dos que me partem todos os dias, mas nestes ainda mais. Quando rezo, é para eles, é para si. Não que ache que Deus seja inacessível, pelo contrário, mas gosto deste gesto com os intermediários que tenho mais perto dele. Não que eu seja uma pessoa má, espero eu. Mas, se já sou pecadora aos olhos da igreja, pelo menos sei que tenho ali quem interceda por mim. Tive saudades suas. Como tenho todos os dias. E pensei nestas coisas, e em tantas mais. Que ainda sei o seu cheiro, que se sentava no chão perto do forno da loja para aquecer, que bebíamos um Compal de pêssego todas as noites, e que tinha por mim um amor sem fim. É verdade que o tempo torna a dor mais pequena, mas ainda faz o coração pequeno e as lágrimas grandes. Porque um amor assim não se esquece, nem quando a ausência atinge a maioridade.

.Eu

.pesquisar

 

.Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

.Agora

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

. .A pior do mundo

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo


View My Stats
blogs SAPO

.subscrever feeds