Quarta-feira, 16 de Julho de 2014

.O B'lota

A história da Dona Teresa, da Prima Teresa ou da Tia Teresa*, os vários nomes pelos quais responde, quase se confunde com a da Casa Silva, onde a podem encontrar quase todos os dias. Chegou ali aos 30 anos, mas, quando já se chegou aos 77 anos - nasceu a 5 de Março de 1937, parece uma vida. Terceira de quatro filhos de Francisco J. F. e Isaura D. F., nasceu no Monte de Pau, perto das C., onde viveu até casar. A irmã mais nova faleceu aos 30 meses, de meningite, o mais velho, Jaime, faleceu recentemente, resta-lhe ainda a irmã M. I.. A escola foi feita nas C., onde chegava a pé, e as boas notas, principalmente a matemática, fizeram com que o professor a quisesse passar logo para o 3º ano. O pai não deixou. A cabeça boa dura até hoje – sabe um sem fim de números de telefone de cor e salteado e faz muitas contas de cabeça enquanto vende pão. Depois da 3ª classe o pai quis que estudasse para ser professora, mas ter de ir para longe da família fê-la desistir – não era como agora, não havia autocarros nem tantas facilidades. Ajudava em casa e trabalhou no campo, numa herdade em Malhadas do Meio, onde os pais faziam searas. O marido, Francisco C. da Silva P., conheceu-o num baptizado, da Emília do Gaudêncio, onde foram os dois padrinhos. Ela ficou-lhe debaixo de olho, e pouco depois, num bailarico, pediu-a em namoro. Juntaram-se depois de 3 anos de namoro, porque esperavam o primeiro filho, J. M., e casaram já com a presença dele, com 6 meses. A parteira não deu conta do recado, tiveram de chamar o Dr. Virgílio, de L., e o bebé nasceu com a cabeça tão espalmada que o marido achou que ia ficar defeituoso, mas o Dr. conseguiu metê-la no sítio. O segundo filho, C. M., nasceu cerca de 16 meses depois, e o médico já só teve de ajudar no final. A loja ficou-lhes de herança – já os sogros a tinham quando o marido nasceu. Ele ainda chegou a andar em Évora, a tirar o curso de Farmácia, mas desistiu por estar longe da família. Entre os sete irmãos, foi o último a tirar o papel – ficou com a loja. Se não tivesse calhado assim, já tinham pensado em emigrar. Aos 30 anos, apareceu um caroço na cara do marido que acabou por lhes marcar a vida. O médico da terra julgou que era por causa da saliva, mas enganou-se. Tratava-se de um tumor que o levou a cerca de 10 operações, a quimioterapia, a uma vida cheia de sofrimento, que terminou há 18 anos. O último pedido que lhe fez foi cumprido, faleceu em casa, junto aos dois filhos. Continuou a trabalhar na loja e, para aliviar o cansaço e as dores (chegou a ajudar o marido a carregar sacas de 80kg), começou a ir passar férias todos os anos com os netos, para a Curia, onde a sua mãe ia tratar as pedras nos rins. Começaram a ir no ano em que a neta mais nova nasceu, a M., já ela fez 16 anos. Aos netos F., L. e A., juntaram-se já os namorados das netas, e este ano há-de ir também o mais novo membro da família, a bisneta Aurora. São férias com muitas gargalhadas, birras e ralhetes da avó, mas passam o ano a contar os dias para voltar ao sítio onde os conhecem por “a avó e os netinhos”, por ser a única que consegue levar para lá tanta gente jovem. Gosta de fazer renda, caminhadas com as amigas, fazer compras e passear. Lamenta não ter tirado a carta, ela que decora tão bem os caminhos, mas o marido achou que não era necessário, toda a gente tinha na família. Hoje acha que lhe dava muito jeito. Mas foi de avião que conheceu o sítio de que mais gostou, os Açores, e onde vai voltar este ano. Não se deita sem se agachar e espreitar debaixo da cama, hábito que ganhou com a avó Rita, que espreitava até o sótão antes de ir para a cama. Aos 77 anos, continua a trabalhar todos os dias, desde cedo, na loja. Mexe na nova caixa registadora, que achou que nunca ia conseguir, e continua a subir o escadote para chegar às prateleiras mais altas. A última vez que subiu acabou por descer da pior forma, e valeu-lhe umas nódoas negras, um galo, uma costela partida e liquido no pulmão. Não faz mal, enquanto conseguir quer continuar a trabalhar, que a loja, de que o marido gostava tanto e ela não, ao início, até lhe dá vida. E Setembro e a Curia estão quase a chegar, para poder então descansar.

 

(*Eu tenho a sorte de lhe poder chamar avó Teresa)

2 comentários:
De Catarina Reis a 7 de Janeiro de 2015 às 04:48
Olá! Gostava de saber mais sobre os pais da sua avó Teresa, a Isaura e o Francisco. Por acaso não sabe se eles trabalharam para um tipo chamado Mourão? Por acaso terá a Isaura nascido em 1916 e morrido em 1956? Era mesmo muito importante para mim saber. Desde já agradeço.
De L. a 7 de Janeiro de 2015 às 10:33
Bom dia. Posso confirmar se trabalharam para esse senhor, mas as datas não coincidem - digo isto porque o meu pai nasceu nos anos 70 e ainda a conheceu. Pensa que os conhece?

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