Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013

.(má) Mãe (II)*

 

Na próxima semana o meu pequeno raio de sol já faz um mês. E eu descubro todos os dias, desde que ela nasceu, que sou uma má mãe, que não estou preparada para isto ou que não faço as coisas bem. Na maior parte das vezes não sou eu que chego a esta conclusão, fazem questão de mo dizer. Sempre me disseram, logo na gravidez, que toda a gente vai ter alguma coisa para nos dizer em relação à nossa criança. E eu tive esperança que fossem coisas boas, conselhos bons ou que me permitissem decidir se seriam ou não bons, mas não, chegam como verdades inquestionáveis sem qualquer hipótese de escolha para mim. Ainda não tinha passado uma semana quando comecei a descobrir tudo isto. Uma só visita fez-me ver que eu deitava a minha filha mal (isso não é assim, é de lado!), que amamentava mal (deitada? Isso não é assim!), que os soluços não eram afinal uma coisa normal (começou a gritar à rapariga para que passassem), que tirá-la do quarto só com mantinhas porque afinal ainda tinha só 5 dias e a diferença de temperatura era muita era um disparate (dá cá a rapariga! – e levou-a para a divisão mais gelada da casa sem qualquer protecção) e que afinal não se dá de mamar a um recém-nascido quando ele pede (mas já vais dar mama outra vez? Não pode ser sempre que ela quer). Que toda a equipa do hospital, pediatra e enfermeira de família mandem deitar de barriga para cima com inclinação, que os pontos me doessem ao ponto de não me conseguir sentar, que todos os que a acompanham digam que os soluços são bom sinal e que devemos prevenir todas as constipações agora que é tão pequenina, que nos mandem alimentar a criança sempre que ela pede, isso não conta para nada. Sou má mãe. Até eu, que nem sequer me tinha preocupado com a balança ou em olhar-me com mais detalhe ao espelho, estava, afinal, muito mal. “Ficaste muito gorda, olha para essa barriga”, disse-me ainda. Sem se preocupar com as hormonas, com os blues, com a educação e sei lá mais o quê. Olhei para baixo, pois, talvez ainda conseguisse passar à frente no supermercado. Fiz um sorriso amarelo, e expliquei que só tinham passado 5 dias. Saí do quarto e fui direitinha à balança – tinha mais 2,600kg do que quando tinha engravidado. Parece que isto era, afinal, uma coisa má. Depois vieram as cólicas. E a culpa também é minha. Porque como coisas que fazem mal. De cada vez que falo com alguém sobre o tema, ou que vem alguém cá a casa, mandam-me retirar um alimento da minha ‘dieta’. Não comas cebola, nem couves, nem brócolos, nem laranjas, nem limões, nem bebidas com gás, nem feijão, nem grão, nem chocolate, nem sei lá mais o quê. Antes de sair do hospital foi a única coisa que me lembrei de perguntar à equipa de lá – o que devia comer ou não nesta fase da amamentação. Que comesse de tudo, responderam-me, evitando apenas o café e os chás preto e verde, por causa da cafeína, que os deixa agitados. Voltei a perguntar às duas pediatras onde já fomos e no centro de saúde. Que não existem provas cientificas de que este ou aquele alimento provoquem cólicas, simplesmente o estômago deles ainda é muito imaturo. E só se eu reparar que alguma coisa me faz mal a mim é que devo evitá-la, porque também lhe vai fazer mal a ela. Mas eu sou má – como verdes e coisas que só lhe fazem mal. Má mãe. E as covinhas do pescoço? Caramba! Sempre com coisinhas brancas. Mas eu não limpo aquilo? Não lhe dou banho? A rapariga mexer-se, e estar embrulhada em mantas, e a vida, sei lá, não contam. Sou má mãe, não trato da higiene da minha filha. E depois voltam os soluços. Pés frios, dizem-me. E eu olho para ela – temos o aquecedor sempre ligado (às vezes mudamo-la de divisão e abrimos as janelas para o ar circular, calma!), tem um baby-grow, um body, umas calcinhas, umas meias polares, dorme embrulhada numa manta, dentro de um saquinho cama, com mais uma manta por cima e a cobertura da alcofa, e o pai ainda fez questão de comprar um mini saquinho de água quente que mete lá dentro quando ela mama ou muda a fralda. Pés frios? Mas os soluços não são uma coisa normal? Ainda que as teorias tanto digam que pode ser do processo de desenvolvimento ou do estômago que, quando está cheio, dilata e toca no diafragma provocando os ditos. É uma coisa normal, voltou a dizer-nos aquela gente toda que tirou cursos de saúde mas não percebe nada do assunto, que afligem mais os pais das crianças do que os pequenos. Pois, sou má mãe, não aqueço a minha filha. É então que lhe metem um bocadinho de lã com saliva na testa para eles passarem. Eu estremeço – os soluços não lhe fazem mal, já aquela saliva não sei! E ela não está muito amarela? Sim, um bocadinho, a famosa icterícia. Mas só na cara. Aquecemos o quarto, tiramos-lhe a roupa, deixamo-la apenas de fralda e gorro, e faz uma espécie de solário caseiro. Explicaram os médicos que devemos fazer assim e que é perfeitamente normal numa criança apenas de peito. Não, não é assim. Maus pais. Soro fisiológico pelo nariz em esguicho para desentupir? Não se vê que estamos a fazer mal à criança? Somos tontos? Mas foi assim que a pediatra mandou fazer. Ando eu a gastar dinheiro com uma pessoa que, afinal, não sabe nada! Dou banho antes ou depois dela comer? Mudo a fralda antes ou depois dela comer? Qualquer que fosse a minha resposta, tenho a certeza que eu não ia acertar. Umas vezes dou antes outras depois – depende. Mas não se preocupem, se for depois, esperamos que passe uma hora, não por causa da temperatura mas para não a agitar muito, como explicou a pediatra. Ai, espera, afinal a pediatra não sabe nada. A fralda depende, depende de tantas coisas todos os dias. Nós próprios mudamos todos os dias porque nos adaptamos à nossa filha – não é assim que se faz? Sabemos que, normalmente, depois de mamarem sujam a fralda, mas se ela não acorda para mamar, ou se adormece a meio do processo, mudá-la com uma compressa e água mais fria é o melhor para despertá-la. Água fria? Sou a pior. E aquele arranhão na cara? Mas eu não percebo que tenho de lhe cortar as unhas? A miúda foi logo sair ao pai nesse pormenor, e saiu com as unhas dobradas, coladas na cabeça dos dedos. Apesar de estarem assim, cresciam nos cantos, e eu ia limando, mas só na primeira semana consegui ‘descolá-las’ lá de cima e cortar melhor. E corto todos os dias, porque os cantos continuam a crescer mais depressa, e são mais finos, quase como papel, e arranham – eu sei, o meu peito, cara, cabelos, também sabem. Como é que eu não me lembrei de lhe cortar as unhas? Que má mãe.

Não fazemos tudo bem, eu sei. O primeiro banho cá em casa foi uma coisa aterradora. Parecíamos duas baratas tontas. Ainda não tínhamos feito a instalação completa no nosso quarto, eu corria ao quarto dela para ir buscar as coisas, o Z. passava-se comigo porque queria que eu visse a temperatura da água antes que arrefecesse, acabámos por discutir. A minha mãe, que veio passar aqui uns dias connosco a seguir ao nascimento (obrigada, obrigada, foi fundamental!), olhava para nós serenamente, e não sei como não bateu com as nossas cabeças uma na outra. Em nenhum instante nos julgou, nos fez sentir mal ou maus pais. E, quando tinha alguma coisa a dizer, fazia-o com jeitinho – “agora dizem para fazer assim? Na minha altura diziam para fazer assado”. Obrigada mamã, por ser assim e me ensinar a ser assim. Ter um filho é uma aprendizagem constante. Quando o despertador toca a meio da noite e mal consigo ter os olhos abertos para dar de mamar, quando dou por mim a adormecer também a meio do processo, também acho que sou má mãe. Às vezes chego a esquecer-me de qual foi a última mama ‘usada’ (coisa de mãe má!) – ao início, a conselho do Z., baptizei-as, eram a ‘mama 1’ e ‘mama 2’. E fazia uma chamada para mim própria com a hora do começo da mamada e o número da mama. Depois o Z. descobriu a aplicação da Nestlé, que devolveu ao meu peito a dignidade. Mas até aí sou má mãe – na tentativa de saber quanto tempo mama a minha filha deixo o telemóvel muito perto da cabeça dela! Tantas vezes dou por mim sem saber de mim própria. Nem sempre consigo tomar um bom banho todos os dias. Já cheguei a estar 4 dias sem o fazer, é verdade. Quando tenho alguém que fique com ela ou quando ela está mais sossegada, fico uma meia hora debaixo de água (com o intercomunicador na casa de banho e ela na alcofa, calma!), passo todos os cremes a que tenho direito, e depois fico a achar que a pequena nem me vai reconhecer porque, para ela, sou ainda e só uma vaquinha leiteira com cheiro a queijo fresco (ou leite azedo). Mas isso há-de ser uma coisa boa, espero eu – fiquei a saber através de uma amiga que, no curso que ela frequentou onde juntaram todas as mães da preparação para o parto já com os bebés, e que devem ser umas 20, apenas ela e outra mãe estão a amamentar (os bebés têm cerca de 3 meses). Todas as outras desistiram na primeira semana porque era muito difícil. Não julgo ninguém (que bom que era que não me julgassem a mim!), e sei que a amamentação não é apenas uma necessidade e um benefício para os pequenos, mas também uma escolha pessoal. E é difícil, pois é, mas nunca me passou pela cabeça desistir – dói ao início, pois dói, é difícil ela pegar, pois é, a subida do leite é tramada, se é, mas vamos lá a isso. Espero não ser uma má mãe aqui também. Quando me vejo ao espelho despenteada, de pijama quase todos os dias, com o buço grande, as sobrancelhas por fazer, os pelos das pernas enormes, as unhas dos pés quase a furarem as meias, nem sempre me reconheço, mas estou ali, a tentar dar tudo pela minha filha, sem me esquecer de mim e do Z..

Depois vamos à pediatra, ou ao hospital, ou ao Centro de Saúde, como hoje, e parece que está tudo bem. Dizem-nos que a rapariga cresceu 2cm, que aumentou 500gr em dez dias, que tem a pele bem, o umbigo espectacular, que não há forma de evitar as cólicas, que é tranquila e isso é um reflexo dos pais que tem, que parecem sempre muito tranquilos e à vontade com ela. E eu fico feliz. Que nos julguem os outros, que nos achem maus pais. Parece que nem tudo está perdido. Sou má mãe, deixem lá. Mas a pequena está bem. E eu nunca fui tão feliz.

 

*Se se encontrarem neste texto, não me levem a mal. Tentem lê-lo com algum humor e pensem que ainda andam por aqui muitas hormonas à solta! Se e quando forem mães vão entender…

4 comentários:
De gc a 21 de Dezembro de 2013 às 14:32
Não te preocupes com o que os outros dizem. Sê feliz!
De mina jesus a 21 de Dezembro de 2013 às 21:30
Olá revejo-me só num ponto! evitar comer alguns ingredientes!

Mas é verdade! Do que as gentes falam? não passes cartão a 99,9%
Beijinho Mina
De Anónimo a 25 de Dezembro de 2013 às 20:51
Filtrar e seguir em frente ;)
Disso tudo para mim a parte mais importante é: uma criança tranquila que espelha bem os pais que tem e o amor que eles têm por ela ;)
Está tudo dito... sem qualquer sombra de dúvida tu és uma GRANDE mãe e vocês são uns excelentes pais.
Beijinho muito grande.
De .Entre o Aqui e o Ali a 26 de Dezembro de 2013 às 15:31
Não sei Porque não ficou registado com o meu nome, mas fica agora (só para saberes quem foi) ;)
Beijinho grande

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