Quinta-feira, 14 de Março de 2013

.O B'lota

Não lhe roubaram tempo nenhum de vida. Chegou a tempo de comer bolo do casamento dos pais. Foi feito numa noite de baile, onde é agora o Monta da Meana. O desejo era tanto, que fizeram logo tudo de uma vez. Nasceu a 27 de Dezembro de 1929, no monte do Palonga, onde o avó materno tinha uma pensão. João A. da S. P. é o mais velho dos oito filhos de F. da S. P. e de C. S. P., primos direitos. Andou à escola nas Cor., numa altura em que havia quatro escolas a funcionar. Morava no monte onde ainda hoje mora e que lhe deu o nome que herdou do pai, e pelo qual todos o conhecem, Casa Nova. O caminho era feito a pé. Depois veio o trabalho. O primeiro foi com o irmão do pai, o tio Deusdado, perto do A. da Mata, com uma parelha pequena. Depois começou a ir às feiras com o pai, onde faziam negócios de gado. Chegou a ter um fato próprio, com jaqueta e botas de elástico, feito pelo J. Leandro, de La.. Ainda era uma criança, e recorda-se de brincar por lá com os filhos dos outros negociantes. Por volta dos 16 anos começou a dedicar-se também à agricultura, e fazia searas para o pai. Era ele também que ia muitas vezes receber o dinheiro que, por muitos motivos, não lhes podiam dar logo quando faziam um qualquer negócio. Foi a trabalhar que viveu algumas situações perigosas, e que podiam ter corrido mal. Como quando caiu do cavalo e acabou por andar alguns metros de rojo. Não se ia ao hospital como agora, e ficou 5 horas na mesa da cozinha, com a cabeça entre as mãos, a recuperar. Ou quando teve de enfrentar uma cheia importante para os lados de Almeirim, numa entrega de bestas em Santarém. Pior do que essa cheia só quando teve de ir entregar uma égua a Mora e precisou de atravessar três ribeiras. Nas primeiras teve a ajuda de cordas, na última pensou que lá ficava. Mesmo no final da ponte, quando o cavalo tinha já as patas da frente em terra firme, as de trás partiram a ponte. Lá se conseguiram equilibrar, mas ficou o susto. Decidiu ali que nunca mais atravessava ribeiras cheias. Teve muitas aventuras, também a trabalhar. Como naquela vez em que foi a Espanha levar uma égua, com o irmão, e só levaram os documentos do carro. O cartão que o dono da égua escrevera para o novo foi o suficiente para os deixar passar a fronteira. Ou naquela em que teve fugir das autoridades de noite, com um porco gordo atado pelas patas, dado por um conhecido com armazéns em Santarém. Eram os tempos do Salazar, da guerra, e não havia muita produção, tudo era racionado e bem-vindo. Ao nascer do sol já estava no A. da Mata, no seu distrito, longe do perigo e com o porco. Teve muitas namoradas, oito. Umas da terra, outras de fora, e sabe o nome de todas. Que não tenha nem mais uma hora de saúde se tudo isto não for verdade. Umas que pareciam sardinhas ardidas, de tão feias, e outras bem bonitas e jeitosas. Chegou a ter duas irmãs interessadas nele, em Évora, que queriam casar com o filho de um negociante, mas explicou-lhes que não podia ser. Se fossem primas, e não corresse bem com uma, podia experimentar com a outra, mas com irmãs nunca. Andou no ‘gandaio’ muito tempo, a correr muitos bailes entre trabalhos, era só “pegar e largar”. Nem as ciganas lhe escapavam. Até que descobriu a Maria R. R., rapariga da terra, que foi encontrar em Almeirim. Foi uma namorada da altura que lhe disse onde ela estava. Trataram do namoro num baile na antiga sede, onde mora o Pa.. Ele estava muito cansado, por causa de um negócio feito em Pegões, mas foi com o irmão. Ela andava a dançar com um primo, que também a queria, mas fez-lhe sinal que a moda seguinte era dele. E ela também. Depois ainda lhe escreveu uma carta, mas a coisa já estava interiorizada. Foi com os patrões dela passar oito dias de férias à Nazaré, com esperança de a ver de fato de banho e poder mexer-lhe na perninha, mas ela não tirou a roupa. Casaram em 1961, num dia de mercado, que o obrigou a fazer quatro viagens. Já estavam todos os convidados à mesa, para saborear o banquete preparado pela Maria R., quando ele chegou. Tiveram dois filhos, com quatro anos de diferença, a Cr. e o Pa.. Tem dois netos do filho, o Da. e a Ta.. Lembra-se de ensinar o Da. a montar quando ele tinha 5 anos. Primeiro foi criticado, depois queriam que ele ensinasse os outros pequenos também. Ensinou-o a trabalhar, com um ancinho e uma forquilha mais pequenos, que davam para o ir acompanhando. Agora já é crescido, e brinca com outras coisas. Têm todas as facilidades, não sabem quanto custa um beijo roubado, às escondidas. Ele também roubou o que podia, mesmo antes de casar, assim já não se estranharam. É um bom marido, apesar de às vezes se chatearem um com outro, diz Maria R.. Os anos foram passando e,  entre tantas coisas boas, as doenças também foram aparecendo, as quedas acontecendo, como a do outro dia, que os obrigou a uma estadia demorada no hospital, e têm de ajudar-se um ao outro. A vida tem sido sempre assim, passada entre bocados bons e outros ruins. E que continue a ser. Não há caminho bom que não tenha outro ruim logo a seguir. E vice versa.       

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