Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

.O B'lota

Não foi uma escolha própria, mas antes a vida, o que fez Gui. Mat. morar nas Cor.. O dinheiro não era muito, o trabalho do marido nem sempre estava certo, e não queriam pedir ajuda. Ficaram então com o terreno que lhes calhou de herança depois da morte do pai, e deixaram para trás a terra que os viu crescer, Sa. do Mato. Foi lá que nasceu, a 14 de Novembro de 1925, apesar de só ter sido registada a 16 de Dezembro. Filha de J. Mat. da Silva, das Cort., e de Dom. R. Var., de Moiteiro, foi a quinta filha de seis, não tendo já consigo nenhum dos irmãos. Cedo saiu da escola, depois de terminar a 3ª classe, para ajudar na mercearia e taberna dos pais, com os irmãos. Era tão pequenina, ainda hoje é, que o pai teve de mandar fazer um estrado para conseguir chegar ao balcão e assim vender copos de vinho. Foi lá que aprendeu a jogar às cartas, os homens chegavam do trabalho e queriam um parceiro para jogar, ela estava no sítio certo. Este ano, quando foi fazer exames ao coração, conseguiu arrancar umas gargalhadas ao médico quando este lhe perguntou se tinha fumado ou bebido, e ela lhe confessou que não, mas que vendeu muitas coisas dessas. Daquilo que gostava mesmo, e que o pai nunca a proibiu de comer, era de doces. Diz que é talvez por isso que hoje já não tem os dentes todos. Na Páscoa, as amêndoas chegavam numa saca de pano, e era a ela que cabia fazer os cartuchos em papel pardo e dividir em doses individuais para depois vender. Os bocadinhos de açúcar colorido que ficavam no fundo eram todos para ela. Teria uns 9 ou 10 anos. Foi lá, na loja, que ouviu o pai ralhar a sério depois de ter ‘roubado’ tecido a um senhor que lá foi comprar riscado para fazer umas ceroulas. Quando se apercebeu que aquele bocado não chegava, ele que tinha ido comprar com todas as medidas, foi reclamar. O pai ficou tão envergonhado que deu uma nova peça ao senhor, e o primeiro ficou para a mãe fazer panos. Com o ralhete veio a lição: só se ‘rouba’ um bocadinho quando já se tem habilidade, e a alguém que compre muitos metros. Foi criada na fartura, mas não na riqueza. Enquanto na casa do marido se dividia uma sardinha por três, e eram 12 irmãos, na sua sempre teve uma só para si. Conheceu Manuel J. G. na terra, e namoraram 10 anos. Deseja que toda a gente tenha um casamento feliz como o deles, que durou 48 anos e só a doença conseguiu terminar. Faleceu há quase 11 anos, depois do terceiro enfarte. Os médicos explicaram-lhe que ninguém sobrevive a três. Ficou-lhe a fazer muita falta, era a sua companhia. Foi depois de casar que voltou à escola, para fazer a 4ª classe. Queriam comprar um carro, e, como o marido não sabia ler nem escrever, coube-lhe a ela tirar a carta. Foi a primeira mulher a fazê-lo em Sa. do Mato. Conseguia ir sozinha até Cor., mas tinha medo de conduzir, principalmente quando se cruzava com camiões de cortiça. Depois de saber que precisava de fazer um exame para renová-la, deixou-se disso. O marido utilizava a motorizada, e não havia semana em que não fosse pelo menos duas vezes a Sa. do Mato, de onde saiu contrariado. Era de lá que lhe trazia um pão guloso, que ela gostava de comer com melancia, com uvas ou com azeitonas. Foi sempre assim, a gostar mais de comer coisas ruins do que boas. E quando o médico lhe tentou tirar o pão, disse logo que seria morte certa. Ficou autorizada a comer o equivalente a uma carcaça, ela que come umas três. Quando casou engordou cerca de 30 quilos, e o sogro até lhe inventou um nome. Não levou a mal, mas começou uma dieta que a obrigava a comer bananas em jejum e uns comprimidos cujo nome já não lembra. Hoje não chega aos 50. Adora bolo de mel, e costuma encomendar na loja Silva a enxovalhada delas, que é boa, rende muito, e tem um sabor parecido. É para ela e para a Rosa, que lhe faz companhia lá em casa, dia e noite, há já quase 13 meses. Já teve seis senhoras consigo, que foram saindo pelos mais variados motivos, até que a Rosa, que também já lá tinha estado, voltou. A sobrinha do marido, a Car., também costuma ir ajudá-la a tomar banho, e leva-a a todas as consultas, que são muitas. Os hospitais e os médicos fazem parte da sua vida. Tem diabetes, colite húmida, e já fez uma grande operação, em que tirou parte do intestino, por ter cancro, um rim e um quisto. Correu tudo bem, mas no regresso a casa caiu, no quarto, partiu a cabeça, e teve de voltar ao hospital. O médico já lhe tinha dito que não era como as outras pessoas, por não querer sair do hospital. Explicou-lhe que era por não ter ninguém à espera. Os filhos não fizeram parte dos seus planos, e quando pensaram nisso já era tarde. Deus esteve sempre na sua vida. Chegou a limpar a igreja de Sa. do Mato, e depois a das Cort., mas acabou por se chatear com o senhor padre, porque gosta de dizer o que pensa. Apesar de já não poder ir à missa, não gostou da alteração do horário, e diz que, mesmo que pudesse, talvez não voltasse lá. Sempre que pode, vê-a na televisão, vê as procissões da janela, e reza duas vezes por dia o terço, uma pela paz, outra pelos seus pecados. E, ao domingo, o J. Cân. dá-lhe a hóstia a casa. Espera que Deus a leve para o bem e não para o mal. E que, quando chegar a sua hora, seja o padre C. Fontes a fazer o funeral. No outro dia soube que ele estava longe, mas ele sossegou-a — ”Não se preocupe, quando chegar a hora, ligue-me, que eu vou”.

2 comentários:
De maria a 3 de Janeiro de 2013 às 17:00
Falta dizer que essa Senhora teve a primeira televisão na aldeia e que a casa dela estava sempre aberta aos vizinhos para verem a novidade das imagens, isto serve para dizer como ela era humana.
De mina a 3 de Janeiro de 2013 às 17:45
Ah eu acho que esta Senhora morava ou mora um bocadinho mais abaixo dos correios do lado direito de quem desce, ser´?!

Se é, eu fui lá com a minha classe e a professora Maria Irene ver a chegado do Papa a Fátima.

Será!!!!

Mais uma entrevista linda!
beij

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