Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

.Era bom*

Conheci-o como conheci tantas outras pessoas por aqui, sem saber bem como. Começa-se com um sorriso, um bom dia, e depois já não passamos sem dois dedos de conversa. Conheci-o no trabalho, e se tantas coisas nos separavam, havia uma forte a unir-nos, a terra. O meu Alentejo ficava a poucos minutos do dele, e era tema de conversa tantas vezes. Isso e os meus ralhetes, pelo tanto que fumava. Todos os dias, antes das 09:30, trazia os jornais para que pudéssemos fazer a revista de imprensa. Se tivéssemos cartas para mandar ou encomendas para levantar não havia problema, que a volta fazia-se por lá. E à sexta-feira, quando entrava com o meu nome na ponta dos lábios, adivinhava-lhe já os planos: era ida certa à terra. Chegámos a encontrar-nos por lá, mesmo sem fazermos por isso. Era dia de ano novo, e chovia tanto. Levei a avó a conhecer uma prima nova e reparei num senhor de guarda-chuva na passadeira, sem que ninguém o deixasse passar, ali em frente à minha antiga escola. Reconheci-lhe o passo, era o senhor V., e só os apitos dos carros de trás não nos deixaram desejar festas felizes com mais vagar. Outras vezes encontrámo-nos no comboio, entre festas – era dia de greve, a bilheteira estava fechada, e o revisor não teve tempo de chegar até nós para comprarmos bilhete. Não me lembro da falta de uma palavra, de um gesto, de uma atenção, para comigo. E ainda que possa ter achado que no trabalho muitas coisas poderiam ser diferentes, quem sou eu para julgar alguém que, provavelmente, só se adaptou àquilo que foi colhendo ao longo dos tempos? Conversámos pela última vez numa sexta-feira. Ia para a terra da sua Maria, seguiam-se as férias, e seria tempo da apanha da azeitona. Não voltei a vê-lo. Estranhava já a sua longa ausência quando a fiz notar a um dos motoristas, mais próximos do senhor V.. Que não estava bem, quando estranhou a velocidade a que perdeu peso foi ao médico e os exames mostraram o que mais temiam, um tumor, nem sei bem onde, nem isso importa, que todos são maus. Tinha sido internado no IPO nesse mesmo fim de semana. Pensei em visitá-lo, meti nota no telemóvel, sem saber se isso seria possível, um plano como tantos outros, cheio de boas intenções. Não houve tempo – bastou um fim de semana sem que estivesse de serviço e sem consultar o email para que o sr. com nome de cidade se apagasse, e todas as cerimónias passassem ao meu lado. E depois chorei, claro que sim. Como não chorar por alguém com quem partilhamos muito mais tempo, muitas mais conversas, do que, tantas vezes, com a nossa família e amigos? Pergunto-me se chegará o dia em que deixarei de pensar que ele entrará mais uma vez na nossa sala sempre que batem à porta para entregar os jornais. Haverá dia em que faça a revista de imprensa sem que deixe o Público mais de lado porque era o jornal que o sr. V. levava para ler ao almoço ou sem tentar adivinhar qual das notícias ia ele comentar nesse momento? Na nossa última conversa falámos da crise, do senhor primeiro ministro, dos cortes, de tantas coisas más que vinham por aí e nos iam mudar a vida. E depois, sem que nos tivessem avisado, chegaram outras coisas más, e levaram a vida, e tudo aquilo deixou de preocupar, de fazer sentido. Oxalá o sr. V. também tivesse ficado sem subsídio de férias, também sofresse os cortes já em janeiro, mas continuasse a trazer-nos todos os dias os jornais, para logo de seguida nos ouvir a ralhar por ter acabado de fumar mais um cigarro. Era bom.

 

*Não gosto do acordo ortográfico, mas estou cansada de resistir em alguns sítios quando em quase 80% do meu dia últil tenho de o usar. Ainda estou a aprender a 'escrever', mas acredito que com o tempo isto vai ao sítio. Este é o primeiro post desta nova fase.

2 comentários:
De mina a 11 de Dezembro de 2012 às 23:11
Lindo! Tens um coração de ouro e és um ser humano incrível!

Beij Mina
De L. a 12 de Dezembro de 2012 às 19:23
Às vezes também sou má... :) Obrigada pelos elogios. Beijinho

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