Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

.O B'lota

Percebi agora que não deixei este por aqui:

 

Foi no passado dia 3 de Junho que soprou 88 velas, mas continua a ser conhecida como a menina El. Coelha. Nasceu nas Co., na casa onde morava o Zé Maltesinho, em 1924, filha de pai e mãe cortiçadenses, S. Coelho e M. E. Barroso. Diz que era uma criança má, irrequieta, que não parava. E são muitas as histórias de que se lembra para o provar. Como aquela em que a avisaram mais do que uma vez para não mexer nos alfinetes e ela resolveu fugir com eles para um buraco no meio da lenha. As horas passaram e ninguém sabia da El. – gritaram, correram, viram poços, mas dela nem sinal. Tinha os alfinetes, tudo o resto podia esperar. Foi o padrinho, grande amigo, que viu o seu gorro vermelho escondido, e a livrou de umas palmadas, dessa vez e em tantas outras. Negociava madeira nas feiras e trazia-lhe sempre um boneco de recordação, mas tinham de lho esconder, porque era estragadona. Explicavam-lhe que era a cegonha que os levava, e passou a detestá-las. A elas e ao senhor que andava a vender agulhas e linhas pela aldeia, e que a avó lhe jurara levar as meninas que se portavam mal em caixotes. Bastava ouvi-lo lá fora para não sair de casa. Lembra os tempos de folia, na escola, com saudade, a mesma que sente dos ensinamentos da professora Bá., irmã do Deusdado, que a acompanhou até ao final da 4ª classe. Depois das aulas veio a costura, que aprendeu com a vizinha Domingas. Era dispensada uma vez por mês para ajudar na casa da professora, que lhe deixava as coisas que precisavam das suas mãos num saco branco: passajava, cosia botões, fazia tudo o que era preciso. Guarda ainda, da juventude, a amizade da Cla. e da Maria D.. Era juntas que davam o passeio de domingo pela aldeia, que viam os pretendentes passar à janela, que faziam bailes improvisados, ao som da concertina do Deusdado, no quintal da Ma.. Começou a namorar aos 19 anos e casou aos 21, também com um homem da terra, J.M. da Silva. Aproveitou uma ida dela à janela, em casa da professora, num domingo de Páscoa, para a pedir em namoro. Ficava por lá de vez em quando, para lhe fazer companhia, porque o marido dela dava aulas em La.. Deixou a costura, que já tinha muito por fazer em casa - em seis anos teve quatro filhos, a Cu., a M. Si., o Zé e o M. J., e costurava para eles. Casou na aldeia porque o marido não quis ir a La., e o almoço, feito pela tia El., reuniu apenas os mais próximos. Na casa onde vive há 45 anos ainda estão os móveis que o marido fez, o chão que ele assentou, os barrotes que inventou para o tecto. Era serrador de profissão, trabalhador da serração da terra. Com o marido veio também o cunhado, que acabou por ficar em casa deles mesmo depois da morte do marido, há 8 anos, e que por ali montou uma sapataria. Por ali ficou até falecer, há 3 anos, pouco depois de partir uma perna.

É uma pessoa informada. Comenta a política e os assuntos do dia com um conhecimento raro de encontrar numa pessoa com a sua idade, e tem opinião para tudo. Defende a continuação da freguesia onde nasceu, em detrimento das vizinhas, porque até tem industria e dá emprego a tanta gente. Justifica-se com as notícias que vê, com os livros que leu. Os netos, o N. P., o Dr. Z. L. foram-lhe emprestando livros, que a ajudaram a conhecer muitos sítios, e até o Sr. Santana, da Bibliomóvel, lhe trazia já alguns de parte. Agora também teve de deixar a leitura, que os braços já não ajudam, desde que partiu um há seis anos, depois de alimentar as galinhas. Mas não foi há muito tempo que leu “Equador”, “Rio das Flores” ou o “Código da Vinci”, e até gosta de os ver depois adaptados à televisão, que os mostra mesmo como os imaginou. Já não tem força nas pernas, que a doença linfática foi-lha tirando aos poucos, mas usa a cadeira de rodas para ir até à rua, ao peal, quando o bom tempo permite, com a filha e as vizinhas, ou para dar uma voltinha maior. Queria uma como a do Estanque, mas só arranjou uma das mais ruins. Enquanto pôde correu tudo – conhece Portugal de uma ponta a outra, em excursões que fazia com o marido. Lembra-se de cada sítio com pormenor, de cada história com certeza, de cada detalhe com lucidez. Poderia escrever um livro com todas estas memórias. Vibra com histórias e gentes de outros países, e conta ao detalhe as viagens que os netos fizeram, que viveram por ela. No frigorífico mantém alinhada a colecção dos ímanes que lhe trouxeram de outras paragens, Barcelona, Croácia, Madeira. Lamenta não conhecer este arquipélago, mas fala como se já lá tivesse estado. A idade tem-lhe tirado algumas das coisas de que mais gosta, o picô, os sacos de retalhos, mas ainda a deixa conversar. Que venha o tempo bom, o sol, o calor da noite, que venham muitas noites mais, de vizinhos, de amigos, de conversa, de peal. É ruim, a cadeira, mas que seja. Enquanto as quatro rodas funcionarem, e houver vontade para empurrar, há-de haver sempre mais uma conversa para ter. Mais um passeio para dar. Mais uma história para contar.

 

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