Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

.O B'lota

Escrever no B’lota é uma coisa que me dá mesmo muito prazer, ainda que não tenha muito tempo e já não esteja tantas vezes quanto gostaria na terrinha. As entrevistas levam-me um par de horas, o difícil é conseguir estar lá. Chovia mesmo, mesmo muito no dia em que fui fazer a última. Atravessei a ponte, depois de sair do trabalho, e cheguei ao meu Alentejo com o vidro um bocadinho descido – que ninguém saiba disto, mas, como não sobe nem desce no botão, o Z. arranjou uma forma de o prender e, quando descai, basta puxá-lo com as mãos. Perfeito para ladrões. O meu carro não tem andado com muita sorte. Primeiro foi a junta da cabeça que rachou, depois foi o vidro do lado do condutor que deixou de funcionar e agora partiram-lhe o espelho também do lado do condutor (tenho um lá colado, que aumenta tudo). Mas o meu carro é o melhor do mundo, e juntos vamos a todo o lado. Estacionei debaixo de um sobreiro, perto do portão do sr. Luís E., e vi que tinha uma faixa molhada nas calças. Da exacta medida do espaço que o vidro desceu. Estava a tentar puxá-lo, à chuva, quando parou um senhor perto de mim a perguntar se precisava de ajuda. Tive noção de que tinha chegado à minha terra nesse exacto momento. Foi uma entrevista boa como todas as outras. De segredos, de desabafos, de gargalhadas. E de lágrimas. Que começaram a cair já no final, quando o sr. Luís E. pegou no acordeão e começou a tocar o vira de La., que dancei com o meu rancho em tantos palcos, tantas vezes tocado por aquelas mesmas mãos. Depois ainda houve tempo para ver os avós e jantar com os pais. Depressa, que o Z. esqueceu-se da chave de casa logo nesse dia. O pai ajudou-me a prender, uma vez mais, o vidro, mas, uns cinco minutos depois de partir, começou a baixar. Tentei puxá-lo do lado de dentro mas só piorei tudo – acabou por descer todo, com um grande barulho. Não parei no meio do nada para o puxar por medo, e assim fui eu, da minha terra à minha casa, com o vidro completamente aberto. Uma hora e pouco de viagem com o vento na cara, o ar condicionado no máximo para aquecer o possível, uns salpicos de água para refrescar e a música no máximo. Há muito tempo que não me lembrava do que era ir sozinha ao meu Alentejo. Quer dizer, tive companhia – o melhor carro do mundo. Com ou sem vidro. E resultou nisto:

 

Basta pegar num instrumento, qualquer um, para começar a procurar as notas. São conhecidos os dotes para tocar acordeão, mas diz ser capaz de fazer música até num raio de uma bicicleta. Luís E. C. nasceu a 6 de Setembro de 1932, nos Foros da Palhota, e cedo se dedicou à música. Devia ter uns 4 ou 5 anos quando aprendeu a tocar, sozinho, num harmónio comprado pelo irmão. Este não conseguiu aprender, mas também não deixava ninguém mexer nele, e foi às escondidas que lhe ganhou o gosto. Nessa altura não havia condições para aprender música como há agora, e quem queria tinha de aprender por si. Deixou a escola no 3º ano e foi ajudar os pais, E. C. e M. C., a guardar porcos. Foi aí que ganhou um gosto que ainda hoje tem, o de fazer pequenos pífaros, que o ajudavam a passar o tempo e não o deixavam ficar longe da música muito tempo. Foi depois para os Montes Frades, arrancar moitas, mas acabou por se desentender com um rapaz que o acusou de lhe roubar uma navalha. A discussão levou-o a procurar trabalho no Vale da Lama, no arroz, onde ficou por 12 anos. Fazia de tudo um pouco, semear e cuidar até estar criado, mexer no trator e até apanhar cortiça. Conheceu a esposa, Cu., no trabalho. Era filha do patrão para onde começou depois a fazer mondas de arroz, em Alcoentre. A sociedade unia o sogro e outro senhor da terra, e levava as pessoas dali até onde fossem precisas durante o tempo necessário, não distinguiam dias da semana e fins-de-semana. Não foi, logo ao início, um namoro abençoado. Escreveu-lhe uma carta onde lhe pedia em namoro e ela aceitou, mas ouviu ralhar do pai, que conhecia a sua fama de namoradeiro. Mas foi à Cu.que disse ‘sim’, depois de um namoro de cinco anos, a 1 de Novembro de 1958. Comprou a primeira concertina a um homem que lá apareceu no trabalho e lhe disse “tem jeito, não perca tempo”. Foi pagando aos poucos com aquilo que ia ganhando. Fazia bailes um bocadinho por todo o lado, o primeiro foi na Carregoceira, e chegava a ganhar 250$ por actuação. Corridinhos e valsas, alturas houve em que tocava dia e noite. Começou a tocar também em ranchos, o primeiro foi o de Lavre. O padre Flausino ia buscá-lo a casa, num carro onde chovia lá dentro, e levava-o para os ensaios. Tocou nos ranchos da Glória, da Azervadinha, do Bairro da Areia, da Fajarda, do Rebocho, de Vendas Novas, da Erra, de Foros de Vale Figueira, de Santana do Mato, e, claro, no da terra, onde esteve quase sempre. Chegou a tocar em quatro ranchos ao mesmo tempo e vezes houve em que se juntaram todos em palco – mudava o rancho, o tocador era o mesmo. Foi no regresso de um ensaio, de Vendas Novas, que apanhou um grande susto. Despistou-se na motorizada, caiu para fora da estrada, e aí esteve inconsciente até que uma carrinha de cortiça viu o sangue e o encontrou. Ainda tem as marcas. Trabalhou como servente, mas as doenças não ajudaram, por três vezes teve de ser operado aos olhos. Esteve quatro anos a fazer aquilo que aparecia, até que decidiu vender cautelas, em 62. Primeiro andava por vários sítios, mas depois acabou por se fixar na zona de Coruche, gostou daquilo. Chegou a usar o boné com estrelas, tantas quantos os prémios que tinha dado. Por seis vezes vendeu a sorte grande, o tão desejado 1º prémio da lotaria. Se todos lhe tivessem pago, teria terminado o ofício muito melhor, mas muitos aproveitaram-se da sua boa vontade e foram deixando o nome, até hoje, na lista das dívidas. Quando a filha nasceu era o que andava a fazer, a vender jogo, e por lá teve de ficar. Só a pôde conhecer no dia seguinte, a roda andava nesse dia, e já não podia ir a Lisboa devolver o que tinha comprado. Foi ela que o obrigou a parar de vender, numa altura em que a mãe adoeceu, há cerca de três anos. Não tivesse sido assim e teria ficado muito pior, reconhece agora. A filha, Ma., chegou quando a mulher tinha 39 anos, depois de muito repouso e dieta, porque até aí não tinham conseguido. Às vezes, quando estão os dois adoentados, ela chega a levar-lhes comida, de Évora, de propósito. É uma boa filha, e têm pena de a começar a maçar tão cedo, mas, afinal, foi ela que chegou mais tarde. Numa das idas a Coruche apanhou outro grande susto. Nesse dia resolveu deixar a motorizada em casa, para não correr o risco de ter um acidente, mas o destino trocou-lhe as voltas. Mesmo estando a regressar à aldeia de carro com as professoras Maria Irene e Maria Prates, acabou por ter um e partir as duas rótulas dos joelhos. Nunca pensou chegar aos 80 anos, confessa, com todas aventuras que teve e partidas que o coração também lhe pregou. Mas chegou. Agora, gosta de cuidar da horta, de fazer e tocar pífaros, de tocar concertina e outros instrumentos no rancho. Gostava de ter aprendido música com um mestre, porque sempre tocou sem ter noção de tudo. Agora há muitos professores, mas antigamente não era assim. Ainda aprendeu por correspondência, e diz ter valido a pena. Não conseguiu passar a paixão ao neto, Fi., mas nem assim deixa de o ajudar nos sonhos dele – se prefere tocar bateria, arranja-lhe uns paus e uns alguidares virados ao contrário. Uma paixão que há-de durar para sempre e que não consegue ter de lado muito tempo. A concertina está sempre ali ao lado, faz parte dele, do Luis E.. Ainda não lhe toca e já os seus dedos vão tamborilando. E depois, quando a agarra, é aquilo que todos conhecemos tão bem. São as músicas com as quais crescemos que nos invadem, tocadas pelas mãos do homem que nos fez conhecê-las também.

 

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