Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

.O B'lota

Foi na casa onde é hoje a loja da Fi. que nasceu, a 28 de Maio de 1923, Fi. Si., o segundo filho mais velho dos oito que tiveram os seus pais. Foi o princípio de uma vida que “dava para escrever um romance”. Gostou da escola, onde andou até à 4ª classe, ali era só “meninice, nada de velhice”. Ainda perdeu um ano, não porque se portava mal, apenas porque calhou mal. Como prenda pelo final da aprendizagem recebeu um cavalo e uma charrua para lavrar a terra. Foi apenas o começo da sua dedicação aos trabalhos agrícolas, que o acompanharam até à reforma. Casou a 12 de Março de 1949, em Lavre, com Ant. Gal., que conheceu ainda na escola. O namoro começou mais tarde, na monda, entre uma e outra “catrapiscadela”. Tiveram duas filhas, A. M. e M. O., que já faleceu, três netos, N., Al. e A., e dois bisnetos, M. e Fi.. Depois de trabalhar por conta dos pais esteve 10 anos na Casa Bragança, daí seguiu para a zona da Messejana, no Baixo Alentejo, tendo depois regressado à primeira Casa. Começou o trabalho por conta própria na Pita Mariça, onde esteve 4 anos. Foi uma seara “muito mal calhada”, que deu prejuízo. Passou depois pela Herdade Bem Calado, pela Quinta de Sousa, pela Pato, e ainda parou em Campo Maior, onde fazia searas de arroz e tomate. Quando chegou o 25 de Abril foi despedido, e estreou-se numa nova área, a construção civil, com o Ant. Si.. Cinco anos depois voltou à agricultura, em Elvas, como encarregado agrícola. Ficou por lá dez anos, com a esposa e o neto N., que viveu com os avós desde os 6 aos 28 anos, altura em que casou. Só depois regressou de vez às Cor., onde continuou a trabalhar por conta própria e a dedicar-se à sua horta. As doenças foram-lhe passando ao lado até aos 83 anos, altura em que resolveram aparecer todas. Primeiro foi um rim que quis parar e o obrigou a ficar oito dias no hospital, depois teve de ser operado à próstata e mais tarde voltou a entrar numa sala de operações, por causa das cataratas. A 5 de Novembro de 2011 uma queda da cama deixou-o com uma perna partida e levou-o a mais uma operação e a um mês no hospital. Pouco depois deu entrada numa Unidade em Mora para fazer fisioterapia durante três meses. Foi neste período que a esposa faleceu, vítima de doença de que padecia há já dez anos. A fisioterapia fazia bem ao corpo e à alma – fez amigos, jogou cartas pelos 20 anos que não tinha jogado, meteram-no a cozinhar e fazer actividades que não se imaginava a fazer, como mexer no computador. No diário que foi fazendo com as suas descobertas em frente a um ecrã de dedos no teclado conta que era o mais velho e o melhor, não deixava nada por fazer, não dizia não a nada. No poema que as animadoras do espaço lhe fizeram na despedida descrevem-no como o mais bem-disposto, e confessam que terão saudades de o ver por lá. Voltou em Março à sua casa, sozinho, “infelizmente”. Conta com a ajuda da filha, “extraordinária”, para ter a casa em ordem, e ocupa o seu tempo entre os jogos de cartas na Associação de Reformados e os livros, que os netos lhe vão trazendo e que também vai buscar à Biblioteca da aldeia. Gosta muito de ler José Rodrigues dos Santos, que não é muito dado a políticas, ao contrário de José Saramago, que não gosta muito por isso mesmo. Costuma ler umas quatro ou cinco horas por dia, e quando apanha o jornal não o larga enquanto não o tiver lido de uma ponta à outra. Sempre gostou de caçar, e foi muito o combustível que gastou atrás dos pombos. Dias houve em que chegou a apanhar mais de 50. Um dos seus grandes sonhos foi cumprido há pouco tempo, pelo neto, queria também ganhar asas. Fez o seu baptismo de voo em Évora, e só teve pena de não ter sobrevoado a sua terra, mas o piloto disse-lhe que o bilhete não dava para isso. Queria ter saltado de paraquedas logo nesse dia, mas não o fez porque a filha não deixou. Tem medo por causa da perna, que sabe ter de manter esticada no momento da aterragem e que não pode voltar a partir ou “lá vai o Fi. para o caixote”, mas faz contas de lá voltar para cumprir mais um sonho. Gostava também de conhecer a Madeira ou os Açores, mas a vida não está para luxos, e já não tem idade para ir sozinho. Quer ainda aprender a mexer bem no computador, e já pediu ajuda aos netos para isso. É mais um passo para acompanhar o crescimento da M., que ainda “é um botãozinho de rosa à espera de abrir”, e o Fi., “inteligente como o pai mas que precisa de campo para arrebitar”. Os planos para hoje já estão traçados, passar pelo café para ler o jornal, jogar às cartas com os amigos, e ler “A Guerra de África”, que já vai a meio. Amanhã talvez faça o mesmo, enquanto espera “o que está para vir”.

1 comentário:
De Anónimo a 6 de Setembro de 2012 às 20:55

Ola, texto muito bonito.
Este Grande Senhor é meu tio e a esposa minha madrinha e tia.

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