Terça-feira, 8 de Maio de 2012

.O B'lota

A minha terceira participação. Como sempre, entusiasmei-me a escrever e ultrapassei, em muito, o espaço que me é dado. Esta é a versão final, mais pequenina. Quando encontrei a Od. no fim-de-semana disse-me que chorou a ler, o tio Deusdado também mo disse na outra edição. E eu não posso deixar de me sentir um bocadinho orgulhosa com isto. Não se trata apenas de contar aos outros quem foram estas pessoas, do que são feitas, é muito mais do que isso.  Mais do que tudo, gosto quando se reconhecem nas minhas palavras, quando se encontram nelas. Fico feliz por me confiarem aquilo que de mais importante têm, a sua vida, e me deixarem escrever sobre isso. Haverá histórias melhores do que aquelas que realmente aconteceram? 

 

A Od. é da família, é mãe da minha madrinha, e mora mesmo em frente da minha casa do Alentejo.

  

"As noites são agora passadas no cadeirão, a televisão ligada, com as fotos de quem mais ama ali ao lado, e a ver nascer das suas mãos, em gestos decorados, rendas que prendem toda a sua atenção. Foi na casa ao lado da que a acolhe agora que nasceu Od. Filipa da Silva, a 21 de Junho de 1938. Foi ali, naquele mesmo sítio, que cresceu, a segunda rapariga dos oitos filhos que os pais trouxeram ao mundo. Foi a última a nascer, quando o irmão mais velho tinha já atingido a maioridade. O pai, M.da S. P., era um homem da terra, a mãe, F. M. da Silva, veio dos Montes Frades, onde o pai trabalhava. Fez a escola até completar a quarta classe e gostou. Gostava das rodas, de pular, dos amigos, de cantar. Foi com essas mesmas cantigas, desses tempos, que ensinou as primeiras palavras em português à neta que nasceu em França. Depois da escola ficou em casa, a ajudar a mãe e a aprender todas as tarefas para a vida. Ali, mesmo ao lado de casa, encontrou o amor de uma vida. O Prates tinha nascido na Chamusca, mas regressou à terra do pai quando completou 7 anos. Trabalhava na oficina do Ramalho, na casa onde agora mora a vizinha Q.. Um dia, vinha ela com a bilha cheia de água do sítio da Custódia Albina, porque a dali não prestava para beber, quando ele a fez parar, na vereda, perto de um sobreiro que ainda lá está, para a pedirem namoro. Tinha13 anos, mas esperaram até aos 18 para que o namoro começasse a sério. Até lá, olhavam um para o outro, e foram deixando crescer o amor que ainda hoje diz sentir dentro dela. Casaram corria o ano de 1962, em Lavre, e um ano depois chegou a primeira filha, a Ma.. Ficaram a viver na casa onde hoje vive a Maria J., e dedicavam-se à agricultura. Chegaram a ir a Campo Maior fazer searas de tomate, nas Herdades da Amoreirinha e da Barranca. Em 1966 chegou o segundo filho, o Jo.. Quando as receitas começaram a não ser as suficientes, em Novembro de 1973, o Prates rumou a França. Em Agosto de1974 a família reuniu-se em Paris. O Jo. tinha a mesma idade que o pai quando se viu forçado a mudar de casa. A princípio não gostaram da ideia, mas depois veio a escola, os amigos, o domínio da língua nova e foram-se acostumando. Ele continua por lá, onde casou e deu dois netos à Od.. O outro neto está em Portugal, para onde a filha regressou. O primeiro trabalho longe do país onde nascera foi na casa de uma professora de línguas que falava espanhol, ajudava nas tarefas diárias. Passou depois para a casa daquela a quem ainda hoje trata por “a minha velhinha”. Chegou quando esta tinha 83 anos, e só saiu depois da sua morte, aos 101. Este foi o seu último trabalho, como lhe pediu o marido antes de falecer. Ali, naquela casa, encontrou uma família. Era responsável pelas tarefas da casa. Quando se juntava a família toda, a Od. também ocupava o seu lugar à mesa, como membro. Quando o Prates adoeceu, convidaram-nos a ficar ali, num quarto daquela casa, que tinha elevador e não o obrigava a subir até ao 4º andar pelas escadas. Enquanto ocupava as suas funções, o Prates fazia companhia à velhota no sofá que se vê no álbum de fotos do 100º aniversário, que o neto ofereceu à Od. Nas três vezes em que o Prates foi operado tinham uma senhora que a substituía para que lhe pudesse fazer companhia na clinica, no outro lado da cidade. Ia de manhã e só regressava à noite, para fazer companhia à velhota, e sempre lhe pagaram o ordenado da mesma forma. O Prates não teve tanta sorte, nem sempre o ordenado era pago a horas na empresa de alumínios, e nem sempre as pessoas o tratavam da melhor forma. Viria a falecer em 1996, em Portugal, vítima da doença. A Od. regressou para fazer companhia à sua velhinha, que faleceu em casa só com ela. Reformou-se aos 65 anos, num sistema de pontos que não olha ao trabalho de uma vida e a todos os impostos que tanto custaram a pagar. Como a reforma não lhe permitia manter a casa de Paris e não queria sobrecarregar os filhos, regressou à sua casa, nas C..  Há dias em que se arrepende, de se ter mudado, de não ter tirado a carta. Tinha tudo ao pé da porta, conseguia resolver tudo sozinha. Agora, com a explosão do multibanco, acabou-se o resto. Guarda boas recordações dos tempos de França, e tem saudades. Acha que teve sorte, sempre em casas boas, de pessoas educadas, que a estimaram. Ainda hoje, quando lá regressa, se encontra com a filha da sua velhinha. “Esta foi a minha vida, mas ainda não acabou”, diz em jeito de remate. E começa a falar dos netos, da Mar., já com a idade que tinha quando foi pedida em namoro pela primeira vez, do Ri., a quem já imagina um namorico agora que chegou à faculdade, do To., que arranjou uma namorada num país diferente. Quando o Prates chegou a Paris não tinham telemóveis nem internet e amor não diminuiu. Agora têm todas as facilidades, e do longe se faz perto. Para eles, que lhe distraem o pensamento entre um e outro ponto de renda, um desejo entre tantos outros. Os avós nunca namoraram mais ninguém e sempre se amaram um ao outro. Que os netos tenham essa sorte também."

3 comentários:
De mina jesus a 8 de Maio de 2012 às 14:39
Muito bom!
Revi essa Senhora em Janeiro no funeral da minha.Ainda está jovem.

Mas o Prates não era sapateiro?

Parabéns, beij
De L. a 8 de Maio de 2012 às 14:58
Posso estar a dizer um grande disparate, e logo vou confirmar, mas talvez tenha sido o pai dele... O Prates sei que não era sapateiro. Beijinhos
De L. a 8 de Maio de 2012 às 22:39
Tem toda a razão, já confirmei e o Prates foi mesmo sapateiro na terrinha. Beijinhos

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