Sexta-feira, 23 de Março de 2012

.O B'lota

A minha segunda participação. (Tenho a sorte deste senhor ser meu tio)

 

Esta é uma história que não começa na aldeia, mas um bocadinho mais ao lado. Corria o ano de 1923 quando nasceu um dos 14 filhos de A. S. P. e M. F. P., um dos 10 que sobreviveu, o único que ainda existe, no monte das Casas Novas. Baptizou-se M. Deusdado, como o marido da madrinha, filha do feitor geral do Vale da Lama, para quem a mãe trabalhou. Ficou órfão de pai muito cedo, aos 9 anos – a doença não se deixou vencer nem pela água que veio de Fátima, pelo caminho de ferro, até São Torcato, depois de a beber faleceu. Começou a trabalhar cedo, num café de Montemor, logo depois de fazer o exame da quarta classe nessa mesma cidade, onde chegou de carroça. Não ficou muito tempo, o dono era “uma excelente pessoa”, mas o irmão acabou por ir buscá-lo, por causa da falta de respeito que havia na casa. Regresso à terra para se dedicar às suas terras, à agricultura, não quis seguir os estudos que o podiam ter levado a ser aquilo que gostava, professor. Por essa altura, a concertina era uma companhia para ele e para os outros, nos bailes e festas onde tocava. Teve de comprar outra depois de ver a GNR apreender-lhe a que tinha. Afinal, o senhor que lha vendera tinha-a comprado com o produto de um roubo de uns suínos, só detectado quando os animais já estavam na salsicharia. Tratava dos animais, fazia searas com os irmãos, numa altura em que se semeava muito, até que, aos 20 anos, a tropa o levou de novo embora, para Lisboa. Foi nessa altura também que se deixou de cantorias e se desfez da concertina. Assentou praça a 17 de Dezembro e por lá ficou cinco meses, depois mudou-se para o Quartel General da 4ª Região Militar, em Évora, e em Julho de 1946 passou à disponibilidade. Houve um General que o quis convencer a ficar, tinha uma letra tão bonita e tanta vontade, mas o apego ao campo e à terra era mais forte. Quando voltou atrás, a vida já não lhe permitiu ingressar novamente no exército – o General havia liderado uma revolta contra Salazar, e passara também ele à reserva, forçada. Regressou, uma vez mais, às terras que lhe pertenciam. A mulher, Cl., lembra que era um jovem bonito e de conversas bonitas. Aos 18 anos começou a fazer os versos que lhe valem a alcunha de poeta da terra, nos ajuntamentos com os rapazes, em resposta às desgarradas dos mais velhos. Talvez tenha sido isso, a cara, o dom da palavra, que roubou o coração de uma moça de boas famílias em Évora. Mas o coração já estava dado à Cl., apesar de o pai dela não aceitar muito bem. Foi só em 1952 que ganhou o direito de namorar como os outros rapazes, à janela, de 15 em 15 dias, até antes do sol-posto. Um direito conseguido com dificuldade: numa das festas da terra, numa corrida de cavalos, acabou por cair e ser levado ao hospital, em Lavre, quase dado como morto. A Cl. saiu de casa, sem ordem dos pais, subiu à carroça do futuro cunhado, e correu para o hospital, onde o encontrou em coma, do qual viria a acordar. A reprimenda nunca chegou, e uns anos depois veio o casamento. Casa não tinha, “mas nunca ninguém deixou de casar por causa disso”. O sogro construiu uma para a filha, de onde saíram só 25 anos depois, depois de dividida a herança da família. A primeira pessoa a bater-lhe à porta foi um mendigo, logo no dia a seguir ao casamento. “Foi uma bênção, era o pobre da Cl.”, que já o conhecia de casa dos pais, onde costumavam ajudar quem lá passava a pedir. Deram-lhe uma moeda, comida ainda não havia ali, e nunca mais o viram. Foi naquela casa que viu nascer a filha e o filho. Era ela pequena, apenas com dois anos, quando seguiu a vida da agricultura noutra terra, em Elvas, onde foi administrar searas de trigo e arroz que chegaram a dar 22500 sacas. Voltou à aldeia, e logo depois nasceu o filho, que veio de surpresa. Começou uma vida nova, dedicou-se ao gado, e, pouco a pouco, nas pastagens do Vale da Lama que arrendou ao sogro, foi juntando rebanhos e uma vacaria. Eram 42 vacas, todas com nome, que lhe reconheciam a voz, e o fizeram chorar quando foi obrigado a desfazer-se delas. O filho, ao ver-lhe as lágrimas, ainda se ofereceu para dar o dinheiro do mealheiro – gesto inocente de criança que ainda hoje comove os pais. A ligação aos animais sempre foi muito forte, e nem as feridas, o braço e o pulso partido que lhe causaram, o fizeram gostar menos deles. Mudou para a casa onde ainda hoje vive já a filha tinha completado o curso de professora. Começou a trabalhar por essa altura com um senhor do Norte, também no mesmo ramo, uma ligação com cerca de 20 anos que terminou agora, quando se retirou para descansar. Ainda dá uns passeios de carro, um hábito que demorou a adquirir – só depois de 32 anos de carta juntou à bicicleta a pedal e a motor, na garagem, um carro. Ajuda na ida às compras ou na visita aos netos e bisnetos, quando vêm ao continente. O primeiro custou-lhe 220 contos, “uma pechincha”, diria o cunhado Marcelino. “Vão rir-se da história da tua vida, marido, mas foi honesta”, diz a Cl., que tem nos olhos o mesmo amor de há quase 60 anos. Uma vida que pode se resumida assim: “Não me importa ser quem sou, / Não me sinto envergonhado, / Pois sendo aquilo que sou, / Sou sempre o M. Deusdado.”

Lá fora: [pip]
2 comentários:
De mina jesus a 23 de Março de 2012 às 20:59
Lindo Laura!
Parabéns á jornalista e ao entrevistado.
Vi-os no funeral da minha madrinha. de facto a minha mana comentou por gestos como ele se colocou para escrever no livro de condolências e comentou a caligrafia, que era muito bonita. Vi a Maria Clarisse, que não via desde os tempos de gaiata, pois fomos colegas da primária.Adorei falar com ela.É pena que não seja dada ás novas tecnologias, como colegas que descobri através do faceb e já lá vão três.
Contigo está tudo bem?o tempo já custa mais a passar pela ausência to teu querido?Espero que sim!
Beijinho, Mina
De reinodosporques a 11 de Abril de 2012 às 14:12
Certo dia comentaram comigo: "Cada pessoa que morre, é um livro que se queima, sem que muitos tenham tido acesso à sua leitura e enriquecimento pelo seu conteudo".

O Teu Tio é uma das pessoas mais sábias e inteligentes que conheci... amigo do seu amigo, presente, "honesto" (como diz a esposa) e verdadeiro, sabendo sempre sábiamente o que dizer e como dizer.

As pessoas mais velhas em idade, são fontes de ensinamento e conhecimento. Sempre as respeitei e respeitarei muito, pois contribuem para a minha personalidade.

Quanto à contribuição para a B'lota espero que continues... é necessário dinamizar e ensinar a localidade. Continua, pois serás sempre a LP. A menina mulher que todos gostam!

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