Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

.Beja

Os meus pais nunca me deixaram trabalhar em tempo de estudo. “Dedica-te à escola, é o teu trabalho”, diziam-me. Durante as férias a conversa era outra, e já estava mentalizada com um Verão a apanhar tomate para conseguir uns trocos quando a minha tia me falou de uma bolsa de Verão para familiares e amigos dos funcionários do Santander. Inscrevi-me sem grande esperança, e acabei com a réstia que tinha no dia das provas: era a mais nova, a única de calças de ganga, a estudar jornalismo e foi um dia com muitas peripécias. Avisaram-nos logo que não escolhêssemos Lisboa, o melhor seria ponderarmos opções no interior, e eu escolhi todos os balcões nas redondezas da minha terrinha. Ligaram-me quando eu regressava a Lisboa, vinda do Porto, num alfa que não me deixava ouvir grande coisa. Beja era opção? Soltei uma gargalhada, as minhas provas tinham sido assim tão más? Pelo contrário, explicaram-me, tinha até tido a melhor nota, mas nenhum dos balcões que eu mencionei tinha aberto vagas. Liguei para os pais, como faço quase sempre na hora de tomar decisões, mesmo as simples, como comprar um móvel vermelho. E, claro, foi a mãe que se lembrou da casa da G., que estudava em Beja e não estaria lá no Verão. Mudei-me para Beja durante três meses. Para uma casa desconhecida, para um trabalho do qual não sabia nada, sem conhecer uma única pessoa. Os exames ainda não tinham terminado, e teria de fazer muitas caminhadas até Lisboa. As minhas roupas não se adequavam ao tipo de trabalho, teria de renovar o guarda-roupa. Ainda não tinha carro, e tinha de me sujeitar às boleias e aos transportes. Sem problema, eu havia de conseguir. E aqueles três meses em Beja foram realmente bons. Aprendi tanto, conheci gente tão boa, cresci mais do que esperava. As colegas de casa fizeram-me sentir realmente em casa, os colegas do trabalho fizeram-me sentir em família, a família e os amigos de sempre esforçaram-se para que eu não sentisse a distância, e a cidade passou a ser minha também. Nem os 40º, nem os dias sozinha em casa, nem os kms percorridos, nem os clientes mal-educados me fizeram ir abaixo. Tinha os dois meninos da caixa sempre a animarem-me, a D. M. que vinha para fazer a limpeza e nos comprava sempre gelados, o menino das tintas para me dizer como estava bonita, o sr. L. para me levar aos melhores restaurantes, e sei lá. Foi tão bom. Na segunda, quando anunciaram no jornal, à noite, o triplo homicídio em Beja, não pude deixar de ficar angustiada e de tentar saber tudo sobre o que se tinha passado. Conhecia o senhor, pois conhecia. O desfalque tão falado foi no banco onde trabalhei, e tantas vezes ouvi aquela história. Passei tantas vezes na loja da família naqueles dias em que não tinha mais nada para fazer para além do trabalho. E foi em Beja, na minha cidade, com as minhas pessoas.

Raramente comento coisas da actualidade aqui neste cantinho. Tenho opinião, pois tenho, mas gosto de guardá-la para mim. Prefiro contar as minhas coisas, e não expressar alegria ou tristeza, aprovação ou desprezo perante as coisas dos outros. Prefiro não julgar ninguém, porque nunca sei aquilo que a vida me pode trazer. Mas hoje preciso de dizer que estou triste, que custa, que não percebo, que a maldade humana não tem limites. Que por mais séries que veja onde tenha de tapar os olhos nenhuma chega aos calcanhares da realidade. Que leio todas as notícias que saem nos jornais e penso: “mas aquela família não teve nada de bom”? Que tenho vontade de voltar lá, ver as minhas pessoas, e partilhar um bocadinho da dor que os atingiu a todos. Sei que não posso fazer nada. Às vezes não tenho sequer poder para mudar o meu mundo, quanto mais o dos outros. A maldade faz-nos perceber a nossa pequenez, insignificância. Hoje vou ligar às minhas pessoas, de Beja, a dizer isto mesmo. Somos nada, feitos de pequenos nadas. E eu gostei que eles fizessem parte dos meus. E continuo por aqui.

.Eu

.pesquisar

 

.Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

.Agora

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

. .A pior do mundo

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo


View My Stats
blogs SAPO

.subscrever feeds