Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

.O B'lota

A minha primeira colaboração:

 

O Sr. MC é um homem da terra que conhece tão bem. Aqui nasceu, na casa que um dia ocupou o espaço onde agora podemos ver “o monte que era do Rafael”, corria o Verão de 1937, no dia 17 de Julho. A escola também foi feita na aldeia, até à quarta classe, aquilo que mais adorou. Gostava tanto das letras como dos números, e quando a professora ditava os problemas do quadro chegava a dar a resposta mal ela terminava de falar. O companheiro de carteira, o A. P., “também era uma pessoa importante nestas coisas”, mas ele chegava a passá-lo. Nesse tempo, as meninas estavam no edifício agora ocupado pela Associação de Jovens e os meninos na escola que um dia existiu perto do J. F.. Só se visitavam uns aos outros uma vez por semana para fazerem provas. “Quem me dera que tivessem feito por mim o que fiz pela minha filha, a A.”, diz com alguma tristeza. Os tempos eram outros, e depois da escola chegou o trabalho no campo. O primeiro foi na Pita Mariça, a tirar os lismos dos campos de arroz com um ancinho. Ganhava 4 tostões por dia, e o patrão dava-lhe mais um por semana. Depois disso correu aqueles mesmos campos com uma lata pendurada ao pescoço, de pau na mão, para espantar os pardais, “mas eles não tinham vergonha, pousavam a uns100 metros”. Foi ali, no mesmo sítio, que experimentou mais uns quantos trabalhos diferentes e que seguiu as pisadas do pai, como anotador das folhas de ponto, onde escrevia as horas que o rancho fazia. Ainda tem folhas anotadas pelo pai. Ao sábado chegava o patrão, J. S., que estendia a saca carvoeira com as notas e as ia distribuindo de acordo com o que ele ia dizendo. Não falhava, “ainda hoje de cabeça vou a muito lado”. E vai, a memória do Sr. MC surpreende-nos a cada frase: as datas, os nomes, as histórias, estão na ponta da língua. Gostou dos tempos que ali passou, na Pita Mariça, e das coisas que fez antes de se dedicar à construção civil. Para atrás ficou o sonho de se tornar engenheiro civil, mas a prática acompanhou-o, “assim que assentava o primeiro tijolo já estava a ver o acabamento lá em cima, porque é nos bons princípios que estão os bons fins”. O jornalismo só chegou mais tarde, há quase 40 anos, mas tem gosto naquilo que faz. “Todos devemos fazer uma acção pela terra”, defende, e esta é a dele. Fá-lo por todos os assinantes da terra, que chegou a ter o maior número do concelho, e por todos os que optaram por viver noutros sítios mas deixaram parte do pensamento e do coração na aldeia. Quando o encontram fazem questão de lhe agradecer, como poderiam saber de tudo aquilo se ele não o escrevesse? E chegam a ligar-lhe para confirmar apostas que às vezes surgem entre um e outro copo de vinho no café, a memória do Sr. MC é o melhor tira-teimas da aldeia. Agora gostava de passar a tarefa a alguém, mas não encontra quem o queira substituir. Para saber as notícias corre a aldeia, telefona, investiga, “não quero erros que possam dar barracadas”, mas, agora, a doença que lhe apanhou o pulmão, “a terceira tragédia em cinco anos”, prende-o mais ao sofá e já não lhe deixa tanto tempo como gostaria para se dedicar à escrita. Também as idas ao Santa Maria lhe roubam tempo. O mesmo hospital para onde foi em 1983, depois de cair do telhado da obra do J. C., de helicóptero, o segundo que veio a V. N. buscar um doente. Só acordou treze dias depois, na cama de casa, sem poder ouvir do lado direito. “Estava marcado assim”, conta sem se lamentar, “acredito no destino, mas auguro sempre um bom futuro”. E dele fez parte a esposa, a D. F.. Conheceram-se no trabalho, mas não a trabalhar. Foi na obra do J. R., ali nos Carapuções. Ela pediu-lhe um conselho sobre uma barra para o muro, e ele respondeu-lhe que só lhe podia dar alguma coisa do concelho de Montemor, do de Coruche não tinha nada. “E aproveitou-se o seguimento da conversa, e deu no que deu”, há já quase 50 anos. Apesar do namoro, portou-se bem, a casa ainda hoje está de pé. Da boca do Sr. MC, que não se cansa de falar para quem não se cansar de ouvir, saem histórias que nos fazem viajar a uma aldeia que nunca vimos (“sabias que havia uma praça de touros ao pé da antiga escola?”), conhecer pessoas que nunca cruzaram os nossos dias (“o A. A. levava tudo pela frente”) e saber da nossa própria história (“no dia em que nasceste levei a tua avó a Montemor com a M. M.”). “A vida antigamente era mais bonita”, e o Sr. MC lembra-se melhor dessas coisas antigas do que das de agora. Está só à espera de uma visita, que tanto gosta de receber e fazer mesmo sem ser por doença, para voltar a contá-las. E há muitas mais no sítio de onde estas vieram.

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