Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

.Música

Lá por casa, no Alentejo, sempre se ouviu muita música. Os pais tinham uma aparelhagem grande, com um vidro que eu utilizava como espelho, e onde me ia vendo enquanto cantava e dançava – aos poucos deixei de me conseguir ver toda lá, e só as pernas apareciam. Não é difícil encontrar por lá microfones de todas as espécies – madeira, cortiça – as pessoas sabiam da minha veia artística e ofereciam-me, muitas vezes feitos por eles próprios. Chegaram a querer inscrever-me no Mini Chuva de Estrelas, de tanto me ouvirem a cantar “mãe sobe a semanada”, dos Onda Choc. Ainda bem que lhes passou. Num destes dias, enquanto ia para casa depois de mais um dia de trabalho, ouvi Joana, um dos discos que os pais também tinham. Comecei a cantar aquilo como se tivesse ouvido todos os dias e a lembrar-me de todas estas coisas, perdidas no baú das recordações.

 

Ontem, quando fazia a ronda habitual pelas notícias, li esta. O Wando (“Você é luz / É raio estrela e luar / Manhã de sol / Meu iaiá, meu ioiô”) morreu. Já não sei como foi parar o cd duplo lá a casa, mas foram muitas as vezes que eu, já com a mana, já na nossa casa de agora com uma aparelhagem nova e um espelho onde apareceríamos sempre, mesmo que crescêssemos mais um metro, cantámos e dançámos com ele como companhia. Quantas lágrimas aturou ele, de desgostos de amor, de brigas, sentada no chão do quarto, costas na cama, e a música dele de fundo. Neste domingo, quando passar lá por casa, vou procurá-lo, deu-me saudades, e nunca se sabe quando pode fazer falta.

 

E por falar em música, deixar aqui esta, que não me sai da cabeça, misturada com tantos outros pensamentos que me assombram por estes dias.

 

“Ninguém disse que os dias eram nossos

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma madrugada.

 

Ninguém disse que o riso nos pertence

Ninguém prometeu nada.

Fui eu que julguei que podia arrancar sempre

Mais uma gargalhada.

 

E deixar-me devorar pelos sentidos,

E rasgar-me do mais fundo que há em mim

Emaranhar-me no mundo, e morrer para ser preciso,

Nunca por chegar, ao fim.” [Mafalda Veiga]

.Eu

.pesquisar

 

.Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

.Agora

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

. .A pior do mundo

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo


View My Stats
blogs SAPO

.subscrever feeds