Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

.i (de iPhone, iPessoa, irritada, insónia, ignorante…)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu e os telemóveis temos muitas histórias juntos. Por norma, acabam debaixo de um carro, ou caem da mesa-de-cabeceira mas ficam como se tivessem sido atropelados, ou começam a fazer coisas estranhas, ou partem-se mal saem da caixa, ou sei lá. Já tive tantos, com tantos finais diferentes, que lhes perco a conta. E eu sou uma pessoa que estima as coisas, se não fosse não sei como seria. Por norma, tenho sido fã da Nokia, mas fiz uma promessa, daquelas tontas, não me costuma dar para isto, que quando avariasse ia comprar um iPhone. E, no início de Dezembro, sem motivo conhecido, o ecrã do meu telemóvel começou a ficar às riscas, uma vez, depois outra e mais outra. E de todas estas vezes eu tinha de o desligar e voltar a ligar, e pedir-lhe para não avariar, porque olha a minha promessa, e as contas, e a casa, e a crise, e a Troika, e mais não sei quantas coisas. Mas ele não me ouviu e avariou de vez no dia em que a Optimus me mandou um mail a dizer que aceitava reservas para o iPhone 4s. Era um sinal, o destino, convenci-me. O pior foi ter assinalado que queria comprar através do programa de pontos, e nunca mais me diziam nada, e o telemóvel avariado, e já toda a gente com o iPhone novo, e eu sem nada. Numa ida ao Colombo resolvi passar na loja e só tinham um, por acaso, porque uma pessoa tinha desistido da reserva, mas era branco e de 16Gb. Era mesmo o que eu queria. E foi assim que cometi a loucura de uma vida e passei a ser uma iPessoa.

 

Tenho uma vizinha no piso de cima que está a acabar, mesmo, comigo. A senhora acorda todos os dias entre as 06:30 e as 07:30 e a primeira coisa que faz é calçar os saltos altos. Corre a casa toda com os malditos sapatos e ainda se dá ao luxo de fazer sprints sempre que se esquece de alguma coisa. Consigo dizer, com toda a precisão, em que divisão da casa está. Pior ainda, se é que isso é possível, é que não a oiço só àquela hora. Sempre que está em casa – não sei como consegue, lá anda a mulher de saltos altos. SEMPRE. No sábado acordou-nos às 07:10 e à meia-noite, quando chegou a casa. No domingo acordou-nos às 07:28, ontem voltou a acordar-nos de manhã e à meia-noite, até que batemos com a vassoura no tecto e ela lá percebeu que devia descalçar-se. Se estamos a ter uma conversa séria e a senhora entra em casa, o meu cérebro pára, não consigo continuar. Os saltos martelam no chão e sinto-os a bater na minha cabeça. Fico com vontade de bater em alguém, transformo-me. Eu queria ir lá bater-lhe à porta, mas há várias coisas a segurarem-me: primeiro, porque leio o Correio da Manhã todos os dias e sei que se matam pessoas por coisas bem mais pequeninas; segundo, porque a minha mãe não deixa, agora que vamos sair dali não vale a pena arranjar problemas, e as mães têm sempre razão; terceiro, porque ela pode ser maior do que eu. Mas o plano já está traçado, vou escrever-lhe uma carta bem bonita, a explicar-lhe que nem todos temos o mesmo horário, que os saltos fazem mal à coluna e aos derrames, que gosto de acordar com o despertador, que uma vez acontece mas muitas são falta de respeito, e que vou embora, felizmente para um último andar, mas agradeço que se porte bem com os próximos inquilinos, e vou deixá-la à porta de casa dela, juntamente com um par de chinelos e uma cópia da lei do ruído. Não sei se vai perceber, porque uma pessoa que faz o que ela faz todos os dias só pode ser muito ignorante. Mas isto digo eu, que ando irritada.

 

Estou de tal maneira irritada com a senhora do 5ºC que já a oiço mesmo quando ela não está. Hoje acordei um bocadinho antes dela, já a sonhar com o momento em que os sapatos começariam a correr a casa toda. Ela saiu, o Z. saiu, e, depois, quem é que me fazia dormir outra vez? Recorri ao meu iPhone. Desde que o tenho estou ainda mais viciada no telemóvel, e faço tudo o que posso com ele. Até me tenho dedicado mais a coisas que ainda me passavam um bocadinho ao lado, como as redes sociais. Tiro fotos em todo o lado e vá de publicar. Abdiquei do meu iPod, pobrezito, mas ele compreende o meu fascínio por este novo amor. Só de fotografia já tenho três pastas cheias de aplicações. Mas tenho outras, umas normais, outras mais estranhas, como programas que emitem barulhos capazes de afastar mosquitos. Tenho uma, a “Magic Sleep”, que tem um céu estrelado, ovelhinhas a saltar e uma música que simula o batimento cardíaco para, supostamente, ajudar a adormecer – nem recomendam que se oiça aquilo no carro. E hoje recorri a ela. Só tenho a versão gratuita, de dez minutos, mas posso garantir que deu resultado, porque não me lembro do momento em que terminou. Tudo isto para chegar a uma conclusão: ando irritada, com insónias, à conta da vizinha ignorante, mas tudo podia ser muito mais difícil se não tivesse o meu iPhone. Há loucuras que vêm por bem, digo eu a tentar convencer-me. Ter-me tornado uma iPessoa só pode ser uma dessas boas.

 

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1 comentário:
De mina jesus a 11 de Janeiro de 2012 às 18:21
Eu subscrevo, acho que deves escrever a carta quando estiveres de abalada.


As pessoas são umas ignorantes e sem sensibilidade nenhuma.Será que ela não tem vizinhos por cima?
beij

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