Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

.A avó Mariana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre a conheci como a avó velhinha, nunca por bisavó. Tem um nome bonito, escolhido há já 91 anos, Mariana, mas todos a tratamos assim. Ficou viúva muito cedo, com sete filhos, depois de ter casado aos 17 anos. O avô Al. foi o primeiro a chegar. Morou sempre naquela casa pequenina, depois de V.N., ao lado de uma das filhas. Lembro-me de ir lá com os avós e nunca ter passado da cozinha. Sentava-me nas cadeiras encostadas à parede, ao lado dos armários cheios de pratos antigos, e via a mesa no meio, sempre sem pó, sempre cheia de fotografias a preto e branco de pessoas que nunca cheguei a conhecer, e uma caixinha de bolachas que abria para nós. Só a idade a obrigou a sair de lá. A avó Mariana é muito pequenina e magrinha. Tanto que cheguei a ter medo de a partir sempre que lhe dava um abraço mais apertado. Sempre a comparei a uma folha no Outono, leve e transparente. Na primeira vez que a visitei no lar quase não a reconheci – não estava sentada à chaminé, não vestia preto, não trazia lenço na cabeça. Foi o sorriso que ma mostrou. Ontem voltei lá e já não consegui vê-lo. Foi na 6ª que os avós me disseram que a avó Mariana estava muito doente. Deitada numa cama, deixou de abrir os olhos, mal come, mal fala, só se vê uma mancha pequenina debaixo dos lençóis com o coração a bater devagarinho. Ontem voltei lá e foi tão estranho. Reclamamos da morte quando vem de surpresa e nos leva aqueles de quem gostamos sem tempo para mais um beijo, mais um abraço, mais qualquer coisa que seja. E ontem ali estava eu, com esse tempo que tanto reclamei em outras vezes, a ter a minha despedida da avó Mariana. A senhora R., que toma conta dela e não a larga um instante, diz que Deus não deve tardar a levá-la, e para já não esperarmos melhoras. E eu sentei-me ao pé dela, dei-lhe um beijo, dei-lhe a mão que ela tentou apertar, alisei-lhe a cara e o cabelo, sempre igual, contei-lhe que vai ser bisavó mais uma vez – o tio Ma. vai ser pai, e lá lhe consegui arrancar algumas palavras a esforço. Faltam-lhe as forças para falar, os olhos já não abrem, o corpo dói-lhe todo quando lhe tocamos e parece mais pequenina do que nunca. Ontem despedi-me da avó Mariana. Agradeci-lhe as histórias, as festas, as tardes de conversa na chaminé dos avós, as bolachas na cozinha pequenina dela, o lembrar-se de mim até à última conversa, o gostar de mim como uma neta-de-coração ainda que o sangue o negasse, enquanto lhe segurava a mão e procurava decorar todos os traços do rosto dela. Nunca hei-de aceitar a bem a morte, quer se faça anunciar ou apareça sem eu dar conta, quer leve novos ou velhos. E agora aqui estou, com uma angústia no peito, um peso no coração. Despedi-me dela, talvez não a veja nunca mais, e no entanto ela ainda está ali, viva, com o coração a desistir de bater a cada minuto que passa. Ontem, quando vinha para Lisboa, vi uma estrela cadente. E o meu desejo foi para a avó Mariana. Que ela, a que eu não gosto nem entendo, venha então. Que a leve de mansinho, sem dor nem sofrimento, num sono descansado. Que tenha a senhora R. lá ao lado, a dar-lhe a mão como tem dado todas as noites, para que ela não tenha medo e sinta todo o amor que há à volta dela. Nesse momento, ela vai poder descansar então de tantos anos cheios, de tantas dores, de tantas outras coisas. E nós vamos poder então maldizer a morte, que nos leva quem gostamos, e chorar, já sem ver um coração pequenino e descompassado a bater-lhe no peito,  debaixo de uns lençóis cobertos de rosas. Mas esta espera, este lugar em que me encontro, eu e todos aqueles que conhecemos a avó Mariana, dói muito. E a morte, aqui tão perto, há-de dizer que nunca nos há-de entender, que não nos decidimos se preferimos só mais um bocadinho ou que ela nos roube tudo de uma vez só. E eu hei-de dar-lhe sempre a mesma resposta: também eu nunca te hei-de entender.

1 comentário:
De mina jesus a 26 de Setembro de 2011 às 21:58
Obrigada pelo que escreves!


Só espero que a minha neta cujo sangue também não ó o meu, seja tão carinhosa para mim como tu, pela tua família e velhotes.

Beijo

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