Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

.Revista de Imprensa

Os custos do amor

por Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público

 

 

Helena Sacadura Cabral. "Em quem eu voto é o grande segredo da minha vida"

por Vanda Marques, Jornal i

O pré-aviso chega por telemóvel: Helena Sacadura Cabral não se sente muito bem. Na manhã da entrevista a tensão arterial rondava os 19 valores, efeitos do calor e da campanha eleitoral, deduzimos. Mesmo assim não desmarcou a entrevista. Íamos preparados para receber uma quota mais reduzida de gargalhadas e um sentido de humor mais contido. A escritora, pilota de aviões, economista, professora, e mãe dos políticos Miguel e Paulo Portas, provou que estávamos errados. Numa conversa sem tempo limite falou dos livros, dos filhos, da economia e da herança de Pedro Álvares Cabral.

 

Tem mais um livro novo.

Vocês devem pensar que estou transformada numa fábrica de fazer livros. Em oito meses foram cinco ou seis já nem me lembro. Vou lhe explicar. Quando tive conhecimento da doença do meu filho mais velho [Miguel Portas, que foi operado a um cancro no pulmão] julgo que teria duas possibilidades de me aguentar firme. Uma seria tomando os dispositivos clínicos necessários, tranquilizantes e isso, outra seria embrenhar-me no trabalho que é sempre uma cura vital. Portanto, embrenhei-me no trabalho. Como sou economista, o custo-benefício de gastar dinheiro em medicamentos sem garantias, não compensava. Depois achei que a família ia precisar que eu estivesse, como estou sempre, forte e resistente. Aqui tem a razão para ter publicado tanto.

 

No livro "Caminhos do Coração" mistura viagens verdadeiras com ficção. Foi fácil?

Devo dizer, isto é uma vergonha mas é a verdade, que nunca tive o drama da folha branca. Naturalmente o que eu escrevo não presta para nada e talvez seja rigorosamente isso. Quando me meto ao computador desaparece o que tenho à volta. Nem sequer altero muita a escrita que é bem coloquial. O meu interesse é ser percebida. Não pelos intelectuais que não me encantam particularmente.

 

Porquê?

Acho que olham muito para o seu umbigo. Falam de um povo que não conhecem, com quem não falam, que só olham através de estáticas. Eu sou portuguesa ferrenha e divirto-me a ver as pessoas a conversar na esplanada, no eléctrico, são a marca do povo a que pertenço. Os políticos, como é público, não me interessam particularmente, o discurso deles menos um pouco. O que me interessa é fazer-me entender por pessoas que vivem experiências novas com o que eu escrevo ou que reconhecem os seus problemas, experiências, nas minhas. Ainda hoje tive uma senhora escreveu no meu blogue: "Leio o que escreve quando estou muito em baixo e isso ajuda-me".

 

Escreve sobre coisas tão diferentes como receitas e menopausa. Como decide?

São as coisas que eu gosto e estou me borrifando. Se fosse intelectual é que tinha de me tornar especialista de alguma coisa. Assim não. Tanto me faz que me conheçam como cozinheira, que sou boa, como cronista, que não sou má, como contista, que sou aceitável, ou como prosadora poética, que também sou. Pelo menos não me podem acusar que faça boa vida porque a faço a trabalhar.

 

(…)

Sempre quis escrever?

O meu pai tinha uma mania excelente quando eu tinha uns 10 anitos. Mandava-me subir para um banco, olhava para o relógio e dizia: "Tens cinco minutos e vais falar sobre um tema. Por exemplo, o sol". Isso deu-me uma enorme vantagem em relação às aulas. Ter um anfiteatro cheio de alunos ou com dois era igual. O primeiro livro que eu li foi o dicionário do Torrinha e o meu pai disse-me: "Vais pôr uma cruz em todas as palavras que desconheces". Como deve calcular estava cheio de cruzes. Esses exercícios deram-me uma enorme facilidade para escrever e falar. Não tenho dificuldade nenhuma a comunicar e pus isso a render. Na economia mais simples e nas coisas do quotidiano.

 

(…)

Com dois filhos políticos, nunca lhe passou pela cabeça entrar na política?

Na política? Tá doida? Sou uma criatura de Deus, sou uma criatura com juízo.

 

Porque não?

Acho que o poder exacerba o que as pessoas têm de menos bom.

 

Em todos os casos?

Não em todos, mas exercício da autoridade é a mais dolorosa das experiências. Chefiei pessoas e sei o drama de poder ser injusto, de não ter a certeza porque é que um aluno bloqueou, porque é um funcionário do Banco de Portugal não produziu. A autoridade não é simpática. Nem para as crianças. As mães às vezes têm de magoar um filho para ele crescer. Lembro-me que o Miguel era tremendo, nunca aprendia o "Não toca na tomada", "Não toca no aquecimento". Gostava de desafiar. Um dia eu disse-lhe: "Então dá cá o dedinho". Coloquei-o na ficha e ele: "Aiii". Mas continuava a testar. Gostava de se aproximar para ver se eu reagia. Coitadinho do Miguel, não foi uma criança fácil.

 

(…)

Divorciou-se de Portas e voltou a casar-se mas disse que teve os filhos com quem queria ter?

Nem nunca me passou pela cabeça ter filhos que não fosse do Portas.

 

Porquê?

Porque era o homem da minha vida e tem-se filhos do homem da nossa vida. Não se anda por aí a fazer filhos. Podemos dar uma volta com o vizinho, mas não ter filhos.

 

(…)

Lá fora: "E quem é que não gosta de ti?"
1 comentário:
De mina jesus a 29 de Maio de 2011 às 21:06
Esta SENHORA é uma mulher com um M grande adoro-a.

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