Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

.Falámos

Na noite de sábado sonhei contigo. Estava num hospital, perto de Belém, com vista para o monumento aos combatentes do Ultramar – não me perguntes porquê. Sei-o porque era a vista da janela do corredor por onde passei muitas vezes, sempre à tua procura. Corri todos os cantos do hospital, e nada de ti. Perguntava a toda a gente, corria, entrava em todas as portas. Até te encontrar. Estavas de pé, encostado à cama, à minha espera, com uma t-shirt verde que sei não ser tua – nos sonhos baralho tudo, misturo tudo, vou buscar tudo. Era a t-shirt que o Z. levava no dia da viagem. Disseste-me: “Precisas mesmo de falar comigo, não é? Procuraste-me tanto”. Abriste-me os braços e eu encaixei-me neles, enquanto as lágrimas caíam antes mesmo de eu pestanejar – mesmo como nos últimos dias, como hoje. E falámos.

Hoje, a caminho de Lisboa, decidi parar no cemitério. Não me lembro nunca de ter entrado num sozinha. Não senti medo, só que precisava mesmo de ir ali. Estive lá uns dez minutos. Vi a placa nova, onde colocaram “Tuto” – mas alguém te tratava por Augusto?, pensei. Nem os professores o faziam. Vi as datas marcadas a dourado – quatro anos, já passaram quatro anos desde que saíste daqui. Fiquei ali, de pé, a intervalar as lágrimas com as rezas até acalmar. E falámos.

Já estava de saída quando ouvi “Menina, menina”. Confesso que me assustei, ia jurar que mais ninguém estava ali. Já devia ter mais de 70 anos, e estava de pé, em cima de uma das campas altas, a lavar o mármore, que o tempo escureceu, com um pincel e lixívia. Pensei que quisesse ajuda para descer – nem percebi como é que ela tinha conseguido subir. “Pode trazer-me este baldinho com água? É que se eu for buscar depois já não consigo subir”. Explicou-me onde era e fui lá. Quando lho entreguei, agarrou-me as mãos com força e, enquanto dizia “Deus lhe pague menina”, começou a chorar. E eu chorei com ela, já sem saber bem porquê. Uma vez mais. Depois entrei no carro e segui para o trabalho. E falámos.

Lá fora: [nada]
3 comentários:
De Mina a 18 de Abril de 2011 às 16:26
Lindo ...o que escreves.


Mas satisfaz-ma a curiosodade!quem era este menino e de onde?

Beij
De Carlos Manuel Lopes da Silva a 14 de Junho de 2011 às 13:45
Desde que li este post e o que a cara L. indicou no seu anterior que várias vezes me assalta a memória.
O quanto me identifico com algumas ideias e sentimentos. O quão profundo é.

Se houvesse um concurso de melhor post do blog ".se perguntarem por mim digam que voei" era este, sem sombra de dúvida, que elegeria.

Parabéns pelo post.
O meu sincero lamento pela perda.

Abraço,

Carlos Manuel

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