Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

.Revista de Imprensa

"Os homens precisam de mimo | Liberdade

 

Eu nunca fui lá muito ciumento. Não por me achar detentor de tão espantosas qualidades pessoais que toda a concorrência fica a milhas de distância do meu esplendor (pobre de mim), mas porque na minha modesta filosofia de vida a liberdade é o maior de todos os valores. Esta simples convicção não é apenas uma coisa vagamente teórica – ela tem, pelo contrário, implicações muito profundas na vida de todos os dias.

 

É por eu acreditar na prevalência da liberdade sobre a igualdade que não sou comunista, que tenho em grande conta o mérito e o esforço individual e que me irrita quando o Estado age como se fosse o papá de todos nós. É por eu acreditar na prevalência da liberdade sobre a autoridade que tento que os meus filhos comecem a pensar pela sua própria cabeça e a assumirem as consequências das suas acções o mais cedo possível. E é por eu acreditar na prevalência da liberdade sobre o próprio amor que o ciúme é algo que se pode por vezes sentir ali na zona da barriga mas que a cabeça (a minha, pelo menos) tem o dever de bloquear.

 

Para quem acredita na liberdade acima de todas as coisas, a infidelidade é com certeza extremamente dolorosa, mas não é algo que se impeça. Se a minha excelentíssima esposa saísse de casa para ir rebolar numa cama de hotel com o George Clooney, eu ficaria muito triste, mas não me passaria pela cabeça fechá-la dentro de casa e atirar a chave pela janela (até porque impedi-la de rebolar numa cama com o George Clooney poderia ser considerado um atentado aos direitos humanos). O ciúme é um sentimento profundamente possessivo, e a única liberdade que eu tenho não é trancar a minha mulher na despensa – é pôr-lhe as malas à porta de casa.

 

É certo que se isto fosse assim com toda a gente iria borda fora metade dos episódios de qualquer novela da TVI, feita de ciúmes assolapados, facadas nas costas e carpideiras de coração destroçado. No entanto, eu acredito mesmo que o amor só faz sentido enquanto entrega absolutamente livre de um ao outro. Quando começamos a namorar com alguém abdicamos de parte da nossa liberdade – desde logo, se se acreditar na monogamia, a liberdade de rebolar com o George Clooney, mas também a liberdade de poder dormir atravessado na cama ou de ter exclusividade da sanita –, só que abdicamos dessa liberdade de livre vontade. O amor é isso: dizer livremente "sou só teu"."

 

João Miguel Tavares, Jornalista

Revista Domingo, Correio da Manhã, 03-04-2011

 

 

Lá fora: “A gente vive na mentira / Já não dá conta do que sente / Antes sozinha toda a vida / Que ter um coração que mente”

Estou:
2 comentários:
De Branca de Neve a 14 de Abril de 2011 às 14:14
Like :)
De Tiago a 1 de Maio de 2011 às 13:43
Gosto :)

Comentar

.Eu

.pesquisar

 

.Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

.Agora

. .Das mães

. .Hoje

. .2

. .Hoje morreu um homem bom

. .Ela

. .22

. .Dos fins de semana bons ...

. .Adeus, Inderal! [com ima...

. .O batizado da Aurora

. .A caminho dos 19

. .A queda

. .I'm sixteen going on sev...

. .O nosso ovo

. .Da culpa

. .A pior do mundo

.Ontem

.tags

. todas as tags

.Mundo


View My Stats
blogs SAPO

.subscrever feeds