Terça-feira, 29 de Março de 2011

.Os meus dentes

Os meus dentes são uma coisa realmente estranha. Foram afectados pelos antibióticos que o meu corpo pedia todos os meses até me tirarem as amígdalas, aos 6 anos. Quando caíram os de leite houve más surpresas – um não nasceu e outro era muito pequenino. Na altura ainda não ligava muito à aparência, e só o meu maxilar, que fazia barulhos e se deslocava por tudo, me obrigou a usar aparelho. Foi bom, muito bom. Ali nos 18, boa vida. Resolveram aumentar um, tirar outro de baixo, e pôr aparelho para aconchegar tudo. Antes ainda tive de desvitalizar um dente, que, no ano passado, resolveu tornar-se escuro-estranho. E eu, que gostava tanto dos meus dentes ‘novos’, moderei uma das coisas que mais gosto em mim, o sorriso. Na entrada do ano novo decidi apenas uma coisa – não quis entrar em profundidades, ia pôr uma coroa. No dentista explicaram-me que o melhor seria um implante. Na passada terça chegou o grande dia. Apanhei uma boleia até ao Terreiro do Paço e decidi ir a pé até ao Marquês. Estava um sol perfeito, dos que aquecem por dentro e por fora, e achei que era o dia certo para provar um gelado Santini – no dia da despedida do meu dente escuro-estranho. Saboreei as minhas bolas de avelã e de chocolate sentada nuns degraus na rua, enquanto ouvia Gaivota pela voz da Amália, que saía da carrinha verde, quando um turista se sentou ao meu lado e me mostrou a máquina fotográfica. E lá estava eu, com o ar mais L. que alguma vez vi numa foto minha. Tinha um sorriso desnorteado, o ar que, sei, meto quando faço ou vejo coisas que gosto. E estava a fazer três: a comer, a ouvir música, a ver pessoas. “Pretty girl”, dizia ele, e eu sorri (com o meu dente escuro-estranho). Agradeci, sem muitas palavras, e segui viagem, debaixo do sol. O Dr. Celso foi ‘legau’, tirou-me um dente sem o arrancar e sem ter uma única dor – desbastou-o, coisa que eu nem sabia ser possível, e fez-me um novo perfeito, à medida. Nestes dias sorri muito, sem me preocupar com o dente escuro-estranho, que já não existe. Sorri como naquela foto, sem me preocupar com o mundo lá fora. Pergunto-me onde andará ela, a minha foto - numa máquina estranha, em estranhas mãos, com um dente escuro-estranho que já não tenho. Mas dele não quero saber. Os meus dentes são uma coisa realmente estranha (mesmo sem o escuro-estranho).

 

 

 

2 comentários:
De T. a 29 de Março de 2011 às 21:40
E eu tenho saudades de ver este sorriso pessoalmente. :) Um grande beijinho*
De Mina Jesus a 30 de Março de 2011 às 00:17
Olá finalmente........

Sempre coisas giras para dizer.

Que grande ausência.

Beijinho mina

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