Quinta-feira, 24 de Setembro de 2015

.22

A Aurora faz hoje 22 meses. Ou um ano e dez meses. Não sei até quando é que se mantém esta contagem, mas dizem-me que é aceitável até aos 24. Que assim seja. Estamos de volta aos nossos dias – ainda com um casamento, um batizado e duas outras cerimónias em falta para que o possamos fazer em pleno. Regressámos de duas semanas de férias que tinham tudo para ser perfeitas mas que foram interrompidas pelo pior motivo possível: a morte. Estávamos na Curia quando soubemos da morte de um amigo, de acidente de mota. Da mesma idade que nós, casado com uma amiga da minha idade, com um filho da idade da Aurora. Voltámos ao Alentejo para testemunhar um dos momentos mais tristes a que assisti e regressámos depois à Curia, onde a Aurora tinha ficado com o pai e a bisavó, com o coração triste, pesado, e com um sentimento de culpa que mal nos deixou ser felizes. Começámos as férias com um casamento no Porto, na praia, que fez as delícias da Aurora. Com a amiga Mi habituou-se a meter o pé na areia, delirou com as ‘kékétas’ (bicicletas) a passar na marginal e adorou ver o metro passar (dizia sempre adeus, e teve resposta!). A semana passou a voar. Nem demos por ela. Os planos foram os de sempre: noite do cachorro, ida à pizza da Mealhada e ao leitão, ida a Aveiro (desta vez com paragem no Lugar dos Afetos), almoço em Mira. A Curia estava igual, eu estava diferente. Já tinha ido como mãe o ano passado, mas este ano foi nada foi igual. A Aurora já anda, já come mais, já interage mais, já tem a sua personalidade mais vincada, já fala muito e tem os seus horários a cumprir. O pai fez desporto todas as manhãs, pelo que acordámos sempre sozinhas. Perguntava pelo pai, corria o quarto à procura dele, e o meu coração ficava pequenino por imaginar o que a R. irá responder ao seu pequeno JP quando ele perguntar pelo pai, que não há de regressar mais a casa. Depois de lhe dar banho, deixava-a no quarto da bisavó e meninas e ia arranjar-me. A seguir ao almoço, enquanto uns jogavam UNO e outros iam para o ténis, nós cumpríamos a nossa sesta. E o dia passava, devagar e depressa ao mesmo tempo. Adorou o ‘quá-quá’ do hotel (um cisne) e falava nele de manhã à noite. Queria ir “à-ruia” vê-lo ou só porque sim. Nisto sai mesmo ao pai – precisa de rua, mesmo sem nada à mistura, para estar feliz. Para ficar mais feliz ainda, só se nos estiver a ver todos. No dia do funeral, quando fomos ter com eles já ao restaurante para jantar, olhava para todos, ria muito, dava gritinhos, pontapés na cadeirinha dela – precisa de gente à volta dela (nisto sai mesmo ao pai e à mãe). Na televisão do hotel não havia a paixão dela – o Panda (com os Caricas ainda melhor). E nós dizíamos: “ que chatice, não há Panda”, sempre que ela apontava para a televisão e pedia. Agora, sempre que houve “que chatice”, apressa-se logo a dizer “não há ‘Panha’”. Apesar de nem sempre ter gostado muito da sopa do restaurante, adorava o segundo prato – foi com gosto que a vimos comer uma pratada de massa à bolonhesa. Rimos muito quando fomos à pizza e lhe perguntei se queria, disse-me que não, perguntei o que queria então, resposta: “cá-ne”. Quer sempre carne (chama o mesmo ao peixe, que também come bem). E chega a comê-la toda sem acompanhamento. Quando regressávamos do casamento no Porto comeu o meu bife da francesinha todo. E mais houvesse. Começou a dizer muitas palavras novas nessa semana, até porque agora adora imitar tudo o que dizemos. E há palavras tão boas: ‘parma’ (calma, dito com a mãozinha levantada), “xim” (deixou de ser ‘hum’), ‘pompa’ (tonta), ‘poma’ (toma), ‘queca’ (boneca), 'pepeta' (chupeta, que já foi 'teteta' - já diz os 'p') entre outras que vou anotando para não esquecer. Ouviu o tio dizer porra uma vez e disse também quando tentou levantar-se e não conseguiu. Diz muitas vezes ‘oia’, para acompanharmos tudo o que ela está a fazer (gosta tanto de atenção). Mete as mãos na cabeça quando dizemos “meu Deus”. E o ‘tá bem’ é dito mesmo à lisboeta. Ela costumava gritar quando queria alguma coisa (ía subindo o tom se não respondêssemos logo), e ensinámo-la a pedir ajuda em vez de o fazer. Agora é delicioso vê-la ir subindo o tom enquanto grita por ‘aiuda’, sempre com uma grande carga dramática. A caminho do Algarve, depois de deixarmos a Curia para trás, parámos no Alentejo para dar beijinho aos bisavós. E que feliz a Aurora ficou quando eles meteram o ‘Cuca’ (Ruca) na televisão – ainda hoje lhe perguntei e tinha a resposta na ponta da língua. Ainda parámos no Alentejo do pai para mais beijinhos aos avós/bisavós, e chegámos a Monte Gordo, onde nos esperavam os meus pais, já perto da meia noite. Que dia comprido, mas bom. Foi uma semana boa, tão boa. Esta miúda, habituada que está a correr o país e a estar com pessoas diferentes, adapta-se a tudo facilmente. Ainda na véspera tinha acordado a chamar pela vó-Tesa, pela madrinha, pelo tio, pelos primos e pela Guida, nessa manhã já chamou o ‘vô-Ão’ e a ‘vó’. Todos os dias tínhamos de ir à rua com ela, mesmo quando chovia. Ia para a porta, pedia o ‘papéu’ (chapéu), o ‘asaco’ (casaco) e pedia ‘à-ruia’. E lá ia a avó até à praceta, ou todos até ao mar para alimentar as gaivotas. Primeiro começou por pisar a areia sem esforço, depois a brincar com ela, depois já ia para as piscinas que o pai fazia à beira-mar e que enchia de estrelas do mar vivas, e depois já andava dentro de água. Eu e o pai tínhamos ido dar um passeio pela areia, quando regressámos e a vimos lá dentro com os avós nem queríamos acreditar. E foi o ‘avô-Ão’, que nem liga a praia, que a levou até lá (e à madrinha, há mais de 20 anos). Entretida que estava atrás de três irmãos que por lá andavam, corria pelo mar adentro sem pensar nos medos e nas lágrimas que há uns meses ele lhe trazia. Nessa semana, para além de ter passado a gostar de água, deixou a avó fazer-lhe totós, deixou-a cortar-lhe o cabelo, comeu muito queijo fresco (mas tinha de ser em cima do pão, como nós, ainda que depois só comesse o queijo), provou cadelinhas (e adorou!), fartou-se de comer ‘cá-ne’ (não podia ver linguiça, nem pernil, nem presunto, queria tudo), experimentou todos os carrosséis da rua (sem moeda, porque não gostou) e correu muito na praia, na praceta e na nossa casa. A despedida das férias ainda nos levou aos avós paternos outra vez e a uma piscina boa posta na rua só para ela, onde até a bisavó I. meteu o pé. Na primeira manhã em que acordou na nossa casa ainda perguntou pela ‘paia’, mas ficou na escola super animada. Chegou grande: em tudo. Mais alta, mais pesada, mais faladora, com mais dentes, mais desenrascada. Está menos metediça e já não vai com tanta facilidade para outros colos. Mas continua a mandar muitos beijinhos e a dizer adeus a tudo: diz xau à água da banheira, à ‘paia’, ao ‘quá-quá’. Continua a adorar dançar e a pedir ‘áquica’ (música) em todo o lado – e abana os ombros quando ouve kizomba. Adora andar de um lado para o outro a limpar o chão com a vassoura e esfregona dela (no outro dia meteu a dela no nosso balde e fez um pequeno lago no chão), e com um pano a limpar os armários. Gosta de fazer pinturas com os lápis de cera: não só nas folhas mas também na mesa, no chão, na parede. Já sabe quando se portas mal e sabe o que deve fazer a seguir: no outro dia mordeu-me a mama de propósito, de lado, ralhei quando já estava a mamar, parou, olhou para mim e disse ‘cupa’ (desculpa). E pede desculpa até quando são os outros a magoá-la (como quando lhe mordi o dedo sem querer). Adora sapatos, todos. Os dela, os dos outros. Passa o tempo a levá-los até aos donos, a tentar calçá-los, a arrumá-los. Pede mais mãe – ‘couo’, queres muito colo da mamã. Gosta de experimentar tudo. Quando saímos do elevador, ou vê que anoitece, diz sempre que está ‘escuio’ (escuro) e pede luz. Adora tudo o que tenha botões: elevadores, telemóveis, comandos (e já sabe tirar e meter a tampa das pilhas). E tudo serve de telemóvel: depressa agarra até numa barra de legos e liga para um dos avós. Adora trepar para cima de tudo. E na loja da bisavó adora tirar os preços todos e trocá-los. É teimosa, muito. Às vezes está com uma grande birra, a chorar muito, e se lhe ofereço a chupeta é capaz de mandá-la ao chão. Mas se eu a mostrar só e não a oferecer, quase um “a ideia foi tua e não minha”, pega nela, mete-a na boca e acalma. É uma apaixonada por animais, principalmente por cães. Temos de parar sempre para lhe fazer festas – começa a chamá-los com a mão, ‘a-cá’, e com beijinhos. Sabe que quando abrimos o frigorifico está ‘fio’ e que a água do banho ou a porta do carro, à tarde, está ‘quenti’. Continua a mamar, onde é preciso, sempre que quere. Pede ‘mama’, e depois vai alternando entre uma e outra sentada no mesmo lado - 'douta', diz ela para mudar. E tem dormido connosco – até ontem à noite. Chegámos de um jantar de amigos, o pai tinha arranjado uma tábua para a caminha de grades nessa tarde, e experimentámos. Primeiro agarrou a minha mão com uma das dela. Quando percebeu que eu começava a tirá-la, agarrou-a bem entre as dela. Depois prendeu-a debaixo da cara. Ainda chorou, mas acabou por ficar. Acordou às 3h, às 5h e às 07h, e levantou-se às 7h30 – já não queria ‘escuio’. Costumava dormir agarrada à nossa orelha, e ainda a pede (‘oeia’), mas nos últimos tempos exigia sempre a minha mama – depois de mamar, ficava a fazer festinhas ou a simplesmente a agarrá-la. E mal eu me virava ou vestia, reclamava. Por muito que goste de dormir com ela bem coladinha a mim, confesso que tivemos noites dificeis. Por muito que me custe ‘separar-me’ dela, percebo que talvez esta seja a melhor altura, para ela, para nós. Hoje, esta noite. A noite em que chegaste aos 22 meses.

[Estás só do outro lado da parede e no meu coração/pensamento sempre]

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