Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

.10

Pequena Aurora, meu pequenino grande amor, já estás connosco há 10 meses. Os últimos têm sido atribulados, mas nem por isso menos bons. Estamos juntos, e só nós sabemos o quanto isso é bom. Foste para o colégio sem qualquer problema. Sofremos mais nós (sou sempre eu a levar-te e a ir buscar-te, mas num dia em que o pai foi, depois de uma consulta, ficou com lágrimas nos olhos e não conseguia sair dali - tive de lhe explicar que o truque é não olhar para trás, passar-te para outro colo, dizer adeus, e seguir em frente). Começaste a fazer a fita do costume para comer, mas já comes a sopa toda ao almoço. Nunca trazes a mesma roupa que levas de manhã, porque há sempre um cocó fugitivo ou sopa espalhada por todo o lado. Logo na primeira semana começaste a sentar-te bem, e ficas sempre a rir e bem disposta. Costumo brincar e dizer que devias chorar um bocadinho por mim, mas é bem melhor assim. Ver o teu sorriso dá-me forças para passar o dia longe de ti. Nos últimos tempos as doenças não te largam, mas não trouxeste nenhuma do colégio. Talvez só a primeira – uma virose (nome que parece que serve para tudo!) que te deixou com 40º de febre, a mim em pânico, e nos levou às urgências. Uns 15 dias depois, na casa dos avós, começaram a aparecer umas borbulhas que eu reconheci de qualquer lado. Foi assim que ficaste livre da varicela, aos oito meses e meio. Dez dias juntas em casa que, se não fossem por doença, teriam sido perfeitos. Tomaste Aciclovir para que não ficasses com mais lesões, mas depois ganhaste umas novas borbulhas no pescoço, na boca e nos braços. Eczema, disseram nas urgências; alergia, disse a dermatologista. Mais de três idas ao médico depois, ainda continuas com algumas. O teu angioma já está muito mais baixo e mais pequeno, nota-se que está a ser 'absorvido'. Mas a dermatologista diz que vais ficar com uma cicatriz e excesso de pele naquela zona. Não faz mal, o importante é que não sofras - ainda que falte muito tempo para terminares o tratamento. Aos 9 meses chegaram as férias na Curia, e como foste feliz! Aprendeste a dizer adeus, vibraste com os primos, a bisavó e a madrinha, comeste sopa nos restaurantes e provaste os teus primeiros boiões (horríveis!). Tocavas nas pessoas para chamar a atenção, dizias adeus quando passavam por ti, ias ao colo de toda a gente e até fazias turras com as senhoras das lojas. Dormias no meio dos pais e, em 5 minutos, tinhas os pés em cima de um e a cabeça em cima do outro. Não adiantava arranjar-te, voltavas a esta posição em segundos. Adoraste andar na piscina com o pai e fazias uma birra quando eles não te levavam para a água. Muito pequenina. Na verdade, mal te ouvimos chorar nessa semana. Mas as tuas gargalhadas, essas sim, fizeram-se ouvir bem todos os dias. Voltámos a casa e trouxemos mais uma doença connosco – outra virose. Esta com vómitos e diarreia. Primeiro apanhou-me a mim, depois a ti, depois ao pai. Olhavas para nós, um bocadinho desesperada, sem perceber o que se passava; e nós ainda mais doentes por te vermos assim. Ficaste um dia em casa com o pai, e dormiram sempre, porque não estavam nada bem os dois. No dia seguinte fiquei eu contigo e tivemos uma surpresa: começaste a bater palmas! E gostas tanto de o fazer. Bates palmas quando estás a mamar, quando ficas contentem, quando queres chamar a atenção. Chegou mais uma semana de férias e pensámos que íamos poder respirar de alívio finalmente, mas não. Cada um de nós foi vítima de uma doença diferente, a ti calhou-te uma conjuntivite. Todas estas coisas acabaram por te tirar o apetite, e acabaste a comer ainda menos do que o costume. Não gostaste nada da praia – o vento, as ondas, deixavam-te assustada. Mas gostaste de brincar na areia e beber a água salgada que te trazíamos num baldinho. Adoravas ir para a rua conversar com as vizinhas ao colo da avó, ir ao mercado com ela, e não foram poucas as vezes que as pessoas vinham ter contigo a saber o teu nome e eu sem saber como. Ias ao colo dos turistas, rias-te quando falavam para ti em inglês, e brincavas com eles como se os conhecesses desde sempre - até choraste quando uma senhora italiana saiu do restaurante depois de ter passado a refeição a meter-se contigo. Na semana passada fomos ao centro de saúde e vim de lá a chorar: não aumentaste nada. Olhando para este cenário de doenças, assim o diz a tua pediatra, é muito normal que assim tenha sido, mas ali fizeram-me sentir má mãe e duvidar de muitas coisas. Nos últimos dias já tens comido melhor, e começaste a fazer papa à tarde com o meu leite, o que me deixa mais animada. Mesmo sem aumentares, continuas com as pernas e os braços cheios de 'chouriços' bons onde eu dou um monte de beijinhos todos os dias.

És uma bebé tão, mas tão feliz. Ris-te para toda a gente, metes-te com as pessoas todas na rua, tens de tocar nos meninos nos carrinhos de bebés, dás gritinhos de alegria só por brincar ao esconde-esconde. Acho que és meiguinha - claro que não faço ideia do que te passa pela cabeça, mas fiquei emocionada quando a educadora me disse que num dia em que o Ca., um dos bebés da tua sala, estava mais chorão, tu, que brincavas ao lado dele no chão, tiveste o cuidado de lhe dar a mão sempre que ele chorava. Mas as tuas festas não são nada meigas, tenho uns quantos arranhões que o provam - principalmente no peito, porque agora paras de mamar e ficas a tentar apanhar o mamilo com dois dedinhos armados em pinça. Se o pai estiver sem camisola, os dele também servem. Adoras animais – queres mexer em todos os cavalos, todos os cães e até num gafanhoto que o pai apanhou adoraste fazer festas. Começas a chamá-los assim que os vês, numa linguagem só tua que vamos começando a entender. Apesar de teres as tuas rotinas, e de as quebrarmos às vezes, voltas aos teus dias sem qualquer problema. Depois das férias tão agitadas e com tanta brincadeira, ficaste na escola sem reclamar e cumpriste os teus horários de lá sem chorar. Não gostas de comer, preferias viver só de mama. Não há uma única fruta ou sopa que eu possa dizer que gostas, porque fazes sempre o teu ar de nojo a provar tudo, mas não deixas de provar. Adoras comer côdeas de pão e bolacha Maria. Assim que te damos uma destas coisas largas a chupeta de imediato e levas logo à boca. Se começam a partir-se aos bocados, ficas com as duas mãozinhas a tentar colar, até perceberes que aquilo não volta a ligar e começares a comer de novo. Agora ris com os olhos fechados, e só de te ver assim fico com lágrimas de alegria nos meus. Percebes que nós achamos piada a isto, e, quando falamos com os avós pelo Skype, ris-te assim tantas vezes que, como diz uma amiga, mais pareces uma estrelinha cintilante. Estás tão habituada a falar com eles assim, a vê-los no ecrã do telemóvel, que quando to metemos no ouvido para ouvires alguém começas logo a puxá-lo para veres quem está a falar. Para ti, o telemóvel só serve para ouvir e ver ao mesmo tempo. Gostas de mexer em tudo, principalmente se não for um brinquedo teu, e levas tudo para a boca. Não gostas de estar na manta parada, preferes andar ao nosso colo para todo o lado. E se estás no carrinho com muita gente de pé à tua volta, começas a dar pulinhos e a fazer caretas para te tirarem de lá (mesmo nos elevadores com gente que não conheces). Às vezes afastamos um dos brinquedos para ver se chegas até lá, mas ou perdes o interesse e agarras outro, ou rebolas até chegar lá - viras-te de barriga para baixo, vês onde está o que queres com o pescoço muito esticadinho, levantas o rabinho, ganhas balanço e voltas a virar-te. E assim vais fazendo até chegares lá. Adoras mexer em orelhas, nas nossas e nas tuas, e acabas mesmo por adormecer agarrada às nossas. Adormeces comigo a cantar-te ‘O Balão do João’ ou a minha versão: “O soninho da Aurora / Sobe, sobe sem parar / Vai dormir, a bebé / Sempre a Sonhar. / Mas o soninho a subir / Deixa a Aurora sem querer dormir / Fica então, a bebé, muito rabugenta”. Ainda dormes no nosso quarto, mas a médica já me disse que temos de mudar isto. Vou sofrer de muitas maneiras: ainda és a minha bebé, queria ter-te ali assim para sempre; vou trabalhar no dia seguinte e tu ainda mamas durante a noite (mais nos dias de colégio do que nas férias e fim de semana – queres miminhos!). Há noites em que chegas a mamar 4 vezes. Não, não é o meu leite que não presta, queres só ter a certeza que nós estamos ali e apanhar um miminho extra. Sim, tens 10 meses e ainda mamas. E as pessoas conseguem ser cruéis com isso. "Ainda mama com essa idade?", "Como é que tens paciência para ainda tirar leite?", "O teu leite já nem deve prestar". Ignorar é a palavra certa. Mamas sim, e vais mamar até querermos as duas. Eu sou feliz a fazê-lo, tu gostas e faz-te bem. Mamas de manhã, ao almoço tiro no trabalho, mamas quando chegas da escola para adormecer, antes de dormires e durante a noite. Sempre que queres que a gente te levante, atiras-te para trás – que perigosa! E se te meto na manta de manhã para arranjar as coisas, começas a fazer estalinhos com a língua porque sabes que quando fazes gracinhas vamos logo a correr ter contigo. Meto-te na tua cadeirinha, ao meu lado, enquanto tomo banho e ainda te aguentas uns 5 minutos lá, mas depois ficas rabugenta e começas a atirar os brinquedos todos para o chão, e a olhar para eles lá em baixo. Fazes isso quando estás cansada de estar na cadeira, quando queres apenas um colinho ou quando não te damos aquilo que queres. Conversas muito, tanto, e tentas imitar aquilo que dizemos. Consegues fazer uns sons muito parecidos, e a madrinha até diz que vais falar antes de começares a andar! Já dizes uns "mamamamama", uns "papapapapa", uns "têtêtêtê". Rimos muito as duas, de manhã, quando acordas e eu te digo que faço magia, abro a janela, e é de dia! Como é bom começar o dia com a tua gargalhada só por veres a luz entrar no quarto! Custa-me muito estar tão pouco tempo contigo. Partilhamos a caminha depois do pai ir embora, porque adormeces depois de mamares, e ali ficamos até o despertador tocar. Arranjo-te, enquanto te vou explicando o processo todo - a troca da fralda, a muda da roupa, os cremes, o medicamento para o angioma. Depois arranjamos o meu almoço, o teu leitinho para levares para a escola, as coisas da bomba do leite e lá vamos nós. Gostas de me imitar a carregar nos botões do elevador, de rir para o espelho e de ver os andares a passar. Falo contigo no caminho, que é muito curto. Explico-te que preferia ficar o dia todo contigo, mas que a vida dos crescidos é mesmo assim. E depois é só esperar que o dia passe. As mães vivem cheias de culpas - ouvi isto tantas vezes, e é mesmo verdade. Fico tão, mas tão feliz quando te vou buscar à escola – assim que me vês pelo vidro da porta começas aos gritinhos, aos saltinhos, e ai das educadoras que não te peguem logo no segundo seguinte para vires ao meu colo, que começas numa choradeira sem fim. Assim que estás no meu colo, tudo está bem, e já nem me ligas, preferes ver tudo à tua volta. Chegamos a casa e dormimos juntas uma sesta que pode bem chegar às 3 horas! Se me levanto, tu acordas, então fico ali ao teu lado nem que seja a contemplar-te. Depois, é hora do pai chegar a casa, e basta ouvires a chave na porta para começares a rir e a procurá-lo na direção da porta. Continuas cheia de curiosidade por tudo o que te rodeia, pelo mundo, e a tua cabeça não pára um bocainho (o tio J. diz que um dia partes a mola!). Ainda não gatinhas, não andas e não fazes um sem fim de coisas que estão sempre a perguntar-me. Não faz mal. Temos tempo. Todo o tempo do mundo, espero com muita força. Contigo, é o que eu mais desejo.

2 comentários:
De mina jesus a 1 de Outubro de 2014 às 16:31
Lindo o texto dos 10 meses.

E já me ri, estava a demorar este dos 10.

beij e continua porque és e serás a melhor mãe do MUNDO.
De Ana a 4 de Outubro de 2014 às 22:52
Já há muito tempo que não vinha aqui.
Continuo a gostar imenso destes textos e a maneira como escreve é fantástica!
Fico feliz por saber que está feliz, desejo-lhe a si e ao seu raio de sol as maiores felicidades deste mundo.

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